Um sentimento chamado recalque

(Vai ser exercício meu mostrar meus lados feios, as coisas que a gente não gosta de falar alto, mas que gritam na cabeça. Há muita ironia, sim. Não se esqueçam da regra: nada é pra ser levado tão à sério. Nem eu, nem você.)
Quando conto do término do meu último namoro, sinto um desejo geral (meu, inclusive) de eu simplesmente esquecer a situação. Realmente: todo mundo já foi largado e todo mundo tá vivendo, não há razão pra tanto #mimimi. O meu argumento – que quase ninguém ainda comprou, mas sigo tentando – é que o que me revolta dessa história não é que ela é minha. É que ela existe.
Explico: se eu ouvisse o caso, vivido pela amiga da cunhada do namorado da minha ex-colega de colégio, ficaria encucada por um bom tempo.
Em momento de começo de namoro, fico obcecada com as exes dos meus namorados. Não uma coisa de ciúmes, mas mais de histórico: Como a menina é, o que faz, em que eu pareço (ou sou completamente diferente), quem terminou, etc. É uma mania potencialmente auto-destrutiva, já que se a menina for incrível (e quase sempre é), eu vou ficar me martirizando porque não sou assim tão sensacional. Estamos trabalhando nessa questão. Auto confiança mandou um beijo.
Vamos focar em um ponto: a ex quase sempre é incrível. Se ela não é linda, ela tem histórias de extrema bondade, dedicação e sacrifício. Ou uma carreira genial. Ou um porte aristocrático – gente chique, sabe? Ou é modelo da Victoria’s Secret (been there, não é legal). Passado o momento do será que eu sou boa o suficiente?, vem o orgulhinho de entrar no hall of fame alheio, onde a modelo da Victoria’s Secret está bem atrás de você. Se o cara começa a gostar de você de verdade, então, melhor ainda. Selo de qualidade na testa, bora comemorar. Você é legalzona, gata. Arrasou!
Por isso mesmo me dá um siricutico quando vejo o alvo da vez entortando por gente duvidosa. Eu tinha um paquerinha há uns dois anos que tinha uma ex muito fofa. Mas o cara passava mal com qualquer par de perna que estivesse em questão. Como a gente foi amigo por muito tempo antes da paquera, cansei de ver ele falando que fulana é muito gata, que é demais. Qualquer fulana. Acendeu a sirene. Não consegui engatar. Perdeu o critério.
Critério. Acho que é bem essa a questão. Não é que todo mundo tenha “tipos”, mas critérios a gente tem. Mesmo que tortos, esquisitos. Vejamos o Latino ou o Belo, por exemplo.
Das exes do meu último namorado – as que eu sei, claro – uma é uma americana simplesmente loira e linda, formada numa ivy league da vida e hoje com paradeiro desconhecido; outra é uma brasileira não linda, mas saída de uma micro cidade de minas e (pasmem!) formada numa outra ivy league – com a qual sonhei por bons anos da minha adolescência (um beijo, Rory Guilmore!) – além de casada e mãe de duas belas crianças – pós namoro, vale dizer. A última, praticamente meu girl crush, é uma bonita – nada extraordinário –  mas muito fina (se eu fosse adepta do adjetivo bem-nascida, ele valeria), tem fama de humilde e discreta, é muito genial e construiu uma carreira f*da do alto dos seus vinte e alguns anos (quer ser minha amiga, gata?). E aí cheguei eu, na minha humildade: médio linda, relativamente bem sucedida, viajada, engraçadinha, intensa, super família, apaixonada, aquela coisa. Tamo junto. Olha pra elas e vê como eu sou legal, hein. Boniteza por osmose.
Só que aí, na sequência, vem uma mulher fruta. Panicat. Professora de pole dancing.
P O L E D A N C I N G, Brasil. Não é professora de educação física que – já que é modinha – dá uma ou outra aula para as alunas sensualizarem em casa, não é isso. A pessoa ganha seu sustento rebolando.
CHOQUE. A sociedade entra em colapso. O bf poderia ter se assumido gay que seria menos surpreendente.
Antes de ser trocada, conheci a gata. Nem sonhava com o que poderia acontecer. Meu então namorado zoou a moça (vendo de hoje eu percebo que já estava mexido). Eu zoei a moça. A vida seguiu.
Vamos ilustrar melhor o tipo:
Elegante.
De bom gosto.

 Arrasando no Guarujá.
(Curiosidade: meu ex uma vez veio me contar de uma apresentação sobre a classe C que ele assistiu que falava da diferença de padrões de beleza entre os níveis socio-culturais. Gisele vs. Dani Bolina. Audrey Hepburn vs. Mulher Melancia. É bem por aí.)
#tortadeclimão
A gente escolhe o menino narigudo (amo!), esportista, que foi nerd na adolescência (outro favorito!), bem lido, bem viajado, bem educado, de família digna, e aí a gente alimenta, faz cafuné, bota pra dormir, dá carinho, cria e educa, paga as férias, leva pra passear… pra ele me vir com uma baranga dessas puxando pela mão? Dona sogra não merece isso, gente. Muito menos eu.
Vamos ser sinceras: a gente sente um odinho de toda mulher que de alguma forma nos ameaça, eu sei. Mas a gente reconhece os lindos olhos azuis, o cabelo esvoaçante, a carreira invejável, os amigos incríveis que a querida tem, ou o artigo que ela escreveu e que você já conhecia antes de saber quem ela era. A gente enxerga. E odeia mais por isso. Chama recalque. Todas nós já vivemos tal dor.
Definitivamente não é o caso.
Vamos fingir que a linda não rebola pra viver. Finge que ela é, sei lá, fisioterapeuta. Passa o dia ajudando na reabilitação de pós operados, acidentados, trabalha com velhinhos – uma coisa bem honrada e normal. Vale assim?
Pois bem, façamos um check list do que sobrou:
É malhada?  Sim.

É gostosa? Óbvio.

Curso superior? Aparentemente, numa faculdade de segunda linha.
Tem tramp stamp? Sim – mais de um, de extremo mau gosto.
No cofrinho e/ou virilha? Hell yeah.
Filhos pequenos paridos antes da maioridade? Sim.
Patrimônio adquirido em um casamento e divórcio? Sim. ALERTA GOLD DIGGER!
Foto nas redes sociais de biquini e/ou similar? Sim.
É na praia? Não.
Está sozinha na foto? Sim.
Fazendo cara e pose sensuais? Pode apostar.
E a foto principal do perfil? Também.
Nosejob mal feito? Sim.
Outra plástica antes dos 30?  ( ) sim (x) com certeza
Trapézio de Diego Hipólito? Sim.
Pescoço de Alexandre Frota? Para nossa alegria.
Cor do cabelo natural? Não.
2 tons próxima do natural? Não.
5 tons próxima do natural? Não.
Ok. Textura natural? Não.
Usa meião branco até o joelho pra malhar? Óbvio, né. É um clichê ambulante.
Acessório indispensável? lentes de contato coloridas.
Autores favoritos? Nietzsche, Bukowski e Neruda (uau!).
Citações? Joga esses autores no Google e usa a primeira que aparecer. (Fuénnnn!)
Autorretrato bem decotada no instagr.am? Uma em cada duas fotos.
Algo mais a acrescentar? Sim. Tem o costume de desenhar figuras eróticas e postar no instagr.am. Uma lady.
I’m sexy and I know it.
Fill the blanks: 
(1.Substantivo: Trabalho esporádico, bico. 2.Adjetivo: Mulher vulgar, fácil. Popular: piriguete.)
B _ _ C _TE.
É esse o mundo em que vivemos.
Reconheço que 90% dos julgamentos são de aparência – e aí você pode me chamar de superficial. Acredite, eu me questionei sobre isso várias vezes! Como falei ali em cima, tenho uma autoestima levemente zoada (mas diariamente trabalhada) e vivo me questionando. O que concluí foi o seguinte:
Imagem é código, é linguagem. Não o jeito que você é, nasceu, mas no que você escolheu se transformar. Eu trabalho com isso, eu estudo isso, é sociologia (que a linda fala que estudou, então deve dominar). Lipovetsky, anyone?
Não é valor indispensável (e nem dos mais louváveis) ser chique e fina. Eu até gostaria de ser mais desapegada dessas coisas e admiro muito quem é – caso aparente de duas das outras exes. Mas quem se encaixa no perfil descrito no questionário, liga pra aparência. Montou uma aparência. Trabalhou duro numa aparência para que ela transmita o que tá rolando por dentro. O que ela acredita. O que ela aprendeu que é bonito. Eu nunca falei com a querida, mas a imagem dela grita. Ela faz questão que grite e – aposto – se orgulha disso.
Reparem que em momento algum eu entro na esfera de quantos caras ela deu/namorou/pegou/levou pra passear, se é rodada, o que é, porque eu não acredito nisso e acho de um machismo absurdo. Não estou falando do que ela faz da vida íntima dela. Tô falando de como ela se comunica. Além disso, vamos combinar que tampouco é uma questão economico-social, dado que a linda conta a quatro ventos que tem um apezão num bairro bacana de São Paulo.
Ah vá, mas todo homem curte uma gostosona né? Pode ser. Sendo bem realista e caindo no risco de soar machista, podemos admitir: todo homem quer pegar, escondidinho, uma mulher-fruta. Vai sair de mão dada por aí? Você gostaria que não. Minha mãe me consolou: é fogo de palha, minha filha. O próprio querido ex, num momento de sinceridade pelo qual ele certamente se arrepende, admitiu: É o mais próximo de uma ˜profissional do sexo˜ que eu consigo chegar. E lá se vão meses de romance.
Continuo intrigada. Continuo não entendendo.
Toda vez que conto a história, o intelocutor me olha como se eu fosse uma leprosa. Amiga, se ele te trocou por isso, tem algo de muito errado com você. E aí vão mais umas quinze sessões de análise. E se for isso, compreenda meu sofrimento dissociado da perda do bofe. Com namorado ou sem, ser podre nunca é legal.
Eu sou MESMO pior que isso? O tempo que eu passei estudando eu devia ter passado malhando a bunda? Me bronzeando no litoral norte? Fazer bonito de biquíni no feriadão – pros amigões do bofe ficarem morrendo de inveja e comentarem na firma sobre a gostosa que ele está pegando – é o que realmente importa nessa vida?
ONDE FOI QUE EU ERREI? Dona sogra querida, ONDE FOI QUE NÓS ERRAMOS?
Outra: aposto que você tá aí pensando que eu sou mal-comida/travada/frígida/you name it e a sensualidade descarada da garota chamou o bofe que, coitado, não via sexo faz tempo. Bom, essa eu vou deixar pro meu ex refletir.
Não compreendo. Não largo o osso. Não quero mais o cara mas quero saber, meu deus, POR QUE??
- Mas… peraí! Esse estardalhaço todo se você nem gosta mais do cara?
Eu gosto do cara. Do MEU cara. Não gosto de um cara que tem uma dessa na ficha. Que levou em casa, apresentou pros amigos, dormiu de conchinha com esse tipo. Se fosse paquera ia rodar na hora. É caminho sem volta. Cilada, Bino.
(É como se eu estivesse construindo uma carreira jornalistica com passagens pela Folha, Estadão, GloboNews e saísse pra escrever no Meia Hora. Deve ter treta. Algo há de ter. Deve tá pagando muito bem. Ou então o profissional é mico. Foi questão de tempo.)
Há algo que eu não consegui enxergar. É o que eu torço: o mundo não é assim.
E você, querido ex, não ia achar bonito se sua filha crescesse pra se transformar nisso. Eu, por exemplo, adoraria ter uma filha Priscila, uma filha Cecília ou uma filha Caroline. Mas, Creyça? Apenas lamento. Que triste.

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  1. Janaina |

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