Sábado de manhã.

Sentei no sofá para calçar meu sapato enquanto olhava para aquela sua foto, fazendo careta, na estante do lado da TV. Foi quando eu percebi que tinha me apaixonado por você.

Eu lutei contra isso com toda a minha vontade. Me forcei para não lembrar da sua risada, do seu jeito doce de me xingar quando eu tiro onda com a sua cara. Me convenci que a sua mania de gostar de coisas das quais eu nunca ouvi falar era uma coisa meio pedante. O seu beijo que envolve, então (e todo o resto, vamos combinar), é prática de moço conquistador. Nada mais que isso, não.

Eu só fui ficando – e ficando – para me divertir. Eu nunca neguei que a sua companhia era gostosa. Sempre foi. A gente bebe, a gente conversa, a gente ri. Todo mundo gosta disso, que mal tem?

Quem diria, então, que o maior frio na barriga que me acometeu no seu sofá foi naquela manhã, calçando os sapatos enquanto você ainda dormia no quarto. Me vi correndo – um salto na mão, outro cambaleante, porta afora.

Meu amigo, que medo da sua careta naquela foto. Olhando pra mim, cheio de deboche. Que medo do que você pode fazer comigo a partir de então. Até parece que você já sabia, viu.

Nao sei o que vencerá aqui: meu status de gata escaldada ou a minha eterna tendência à teimosia. Minha natureza tão kamikaze já tem me feito desviar menos o olhar enquanto você ri. Outro dia, me peguei respirando a sua pele enquanto esperava o sono. Custei a dormir de tanta auto flagelação, é verdade. Estou com raiva até hoje porque seu cheiro ajudou a me acalmar.

Quando eu corri, enfim, meus sapatos acabaram jogados pelo tapete da sala. Não fiquei para ver, mas tenho certeza que sua foto virou o pescoço, com cara de deboche e de charuto na boca, para rir da minha fuga desastrada. Mas o elevador demorou e você apareceu de novo: abriu a porta do apartamento, de cara de sono e roupão, para me achar parada feito estátua no corredor.

E eu fiz piada: sorri, joguei charme e soprei um beijo. Carreguei meu pânico, escondido, pelo elevador. E agora o trago pela vida.

 

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