Diário asiático, dia 10: de Vang Vieng para Vientiane, Laos

Dia intenso! Fiquei escrevendo até tarde na véspera, meio que esperando a galera voltar da baladinha, ver se ia rolar uma fogueira* de novo e se GG ia estar lá, mas nada. Encasquetei que conversar com GG está sendo basicamente impossível, também por minha culpa: eu só procuro ele por coisas práticas, informações, agradeço e saio de perto. Pois é, aquela timidez. Ao mesmo tempo, como eu dou umas encaradas, também é grande a chance de ele estar me evitando – ele conversa com bastante gente – então resolvi não gastar tanto minha cabeça com isso. Na verdade, se até a troca dos grupos* não surgir nada minimamente concreto da parte de lá, eu desencano. Nem amizade tá rolando, tá foda.

(* Vou voltar e escrever sobre os dias faltantes e explicar essas coisinhas.)

Acordamos cedo, arrumamos mala, carregamos mala, pegamos o ônibus. Na espera do busão, GG sentou do meu lado bem na hora que eu estava respondendo por mensagem as pessoas que perguntaram sobre ele (gente, vamo ficar esperto aí, tem foto rolando no feice!) e lógico que a pessoa retardada aqui deu um pulo e se assustou. Como sempre, cuidamos de coisas práticas da viagem, eu agradeci e ponto. Tapada, eu?

Quatro horas de busão até Vientiane, a capital e última parada no Laos. Sentei do lado da menina grande e atrás de GG, que me emprestou um livro sobre o massacre de Khmer Rouge, no Camboja. Estou tentando sair do assunto GG mas esses dias trombei com a mini biblioteca que ele carrega e, gente, é amor. Todo tipo de livro sobre os conflitos, direitos humanos, trabalho local da ONU, essas coisas básicas que todo mundo carrega por aí, né? Durante a viagem ele arrasou numa aula incrível sobre o bombardeio que aconteceu no Laos paralelo à guerra do Vietnã, a chamada Guerra Secreta. A nossa primeira parada tinha a ver com isso, o Cope Center.

Eu nem sabia da Secret War antes de chegar aqui, e foi uma das coisas que mais me tocaram na vida. Durante 9 anos, entre 1964 e 1973, os EUA bombardearam o Laos a cada 8 minutos e muitas dessas bombas não explodiram (cerca de 40%), o que dá mais ou menos 60 MILHÕES de bombas ainda espalhadas por todo o país. Aí já viu, uma criança acha uma bolinha brilhante no meio do mato, resolve brincar e bum! Mais ou menos o mesmo princípio das minas terrestres na África.

Pra piorar, o Laos é o país que foi mais bombardeado no mundo em toda a história. O COPE center funciona exatamente para educar a população sobre esses objetos perdidos, principalmente as crianças, além de dar assistência às vítimas das bombas. Gente, é pesado. Eu até me acho estômago (e coração) forte pra essas coisas, mas chorei feito uma retardada. Vimos um documentário sobre as missões que existem para desativar as bombas e falamos com algumas das vítimas, que ficam por lá. Apesar de ter ficado mal, foi uma das coisas que mais gostei da viagem. Como falei, precisei atravessar o mundo para focar nisso. Se bem que no Brasil pode ter miséria e tudo, mas guerra a gente não tem. E é muito, muito pior.

Acho que já falei que tenho pensado bastante nessas coisas e como essa viagem tem me tocado nesse sentido. Percebi que estou muito mais feliz do que nos últimos meses, que minha vida está mais simples, que eu estou absorvendo mais do mundo e fico pensando qual é meu papel em tudo isso. Confesso que não tô pronta pra voltar pra São Paulo, pro meu apartamento bacana, pro ar condicionado do meu carro, pra um escritório qualquer, pra uma volta no Iguatemi e um jantar pelo Itaim. Não sei mais se isso me traz felicidade. Eu fiquei 4 anos construindo uma vida nessa cidade e a sensação que eu tenho é que ela mais me sugou do que me deu – e nisso eu tenho culpa, também não soube absorver. É isso que vai me fazer feliz? Sabe, levei 3 anos pra achar um amor de novo, um cara bacana para os padrões paulistanos que cruzaram meu caminho, e aí aconteceu o que aconteceu, e aí eu venho aqui e olha o que tá na minha frente… não tem nem comparação. Falando de GG: acho que ele vai me marcar muito por isso, por me mostrar uma outra vida. Um cara LINDO, privilegiado, tão inteligente, absurdamente apaixonado pelo que faz, pelo mundo, pelas pessoas. Esse cara não estaria em São Paulo. Esse cara não trabalharia num banco de investimento. He blows my mind, in every way.

Têm um mundo bem maior aqui fora.

Não é que eu estou fazendo festa com um monte de gente incrível, ou que estou no meu ambiente, pelo contrário. Aliás, isso é ainda mais curioso. Tenho passado bastante tempo relativamente isolada, quieta, e isso está me dando uma paz que eu nem lembro se já senti. Uma paz que Londres não me deu. Uma sensação de que eu sou muito abençoada, sortuda e que há muito pela frente. Não é por isso que a gente procura?

Tenho falado bastante sobre isso com a minha roomate, que tá num momento de vida parecido mas é 3 anos mais velha. Esses três anos, nessa fase da vida, fazem toda a diferença. Ela acha que se não voltar pra São Francisco, ela vai perder o timing de ter a família dela e que isso é prioridade. Eu concordo, é prioridade. Mas eu não acho que vou achar em São Paulo. Antes eu tinha medo de não achar. Agora então, duvido que apareça. Não existe amor em SP.

Enquanto tô aqui vivendo de havaianas, gastando 20 reais por dia (sim, gente, vinte dilmas num dia movimentado!) eu vejo no instagram as Lalás da vida postando fotos das suas maquiagens novas e eu só fico triste por elas. Essas meninas têm toda a oportunidade de viver o melhor desse mundo e tão lá no Jardins fotografando a pia. Eu já fotografei meus sapatos e eu tenho uma Chanel, eu sei. Não que eu não estivesse procurando as coisas de verdade lá em São Paulo. Eu tava, eu já sabia o que me faria feliz de certa forma. Mas essas coisas ou não aparecem ou vão ficar com uma dançarina de pole dancing. O que tá à nossa mão são as alegrias superficiais, elas estão por todo lado e a gente pode pagar por muitas delas. As verdadeira sumiram. Não é esse o mundo que eu quero viver.

Quero deixar claro que eu sei que eu faço parte dessas meninas privilegiadas que podem se dar ao luxo de viajar o mundo e, talvez por isso mesmo, seja meu dever embarcar nisso o máximo que eu puder. Percebi que nessa viagem meu prazer de escrever voltou, que eu posso contar histórias, que eu posso trazer o Brasil para esses universitários tapados, para a roomate incrível, para o GG. Eu fico pensando que juntei grana a vida toda pra uma festa de casamento fenomenal e talvez o casamento de verdade seja esse. Com o mundo. Tô viajando?

O mundo nunca vai me trocar por uma dançarina de pole dancing e nem mesmo por uma modelo da Victoria’s Secret.

É nisso que eu pensei enquanto chorava do lado de fora do COPE center. Escondida, porque eu sabia que não tinha o menor direito de estar chorando enquanto o menino de 19 anos mutilado e cego ria com as visitantes. Talvez essa seja uma pista do caminho que eu devo seguir.

Napoleon was a fucking rockstar. – a quote from history class by our beloved GG.

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  1. Naty faria |

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