Diário asiático, prólogo: somewhere over India

24 horas em trânsito e parece que me aproximo remotamente do meu (primeiro) destino final. Não deu nem tempo de me acostumar com o Brasil – foram só 6 dias – muito menos com São Paulo ou BH. Deu para matar a saudade, sim, e me despedir. Talvez não de todo mundo, mas isso é outra história. Estou a 9 horas de fuso horário distante dele – se contarmos a falta de horário de verão no ceará, são 10 – e a expectativa da ida, as mil coisas para cuidar, finalmente o expulsam minha cabeça – tarefa que tem sido quase impossível nos últimos 5 meses.

Guarulhos já parece casa – quase Congonhas – e no taxi a caminho do aeroporto, naquela estrada escura, acho que vou sempre lembrar do guia de viagem sobre a espanha, do cadeado, do escuro que o impede de ler o que está gravado, do taxista espantado, da euforia. A euforia é companhia constante nesse trajeto, é verdade, e dessa vez ela vem com muito mais antecipação, frio na barriga, um medo gostoso, um completo desconhecido à minha frente. Não sei realmente o que esperar desse mais de mês sozinha no mundo. Ok, você diria: “mas, Lorena, você acabou de voltar de uma viagem onde também foi sozinha”. Mas agora zera tudo e toda vez que eu invento de esboçar o que me espera eu nem sei bem o que inventar: as pessoas, os lugares, os hotéis, o clima, a programação, nada. Só agora, depois de quase um dia inteiro de vôos, ousei olhar o cronograma que recebi, antes de londres até, mas que resistia em estudar. É verdade que fui quase negligente nesse planejamento – sou bem assim na vida, “tudo vai dar certo”. Por isso mesmo que tenho um certo medo tipo Liége, pra onde fui tão despreocupada e que me rendeu tantos apuros. Prefiro não criar expectativas, talvez? O fato é que não sei quais expectativas criar. E aí fico guardando esse medinho dentro de mim, como se ele fosse me proteger de perigos e imprevistos, mas não faço ideia de quais possam ser.

Guarulhos, além de casa, se torna um lugar cada vez mais bizarro pelo fluxo de pessoas – que varia dos turistas ruma à orlando à, como dessa vez, legião de bolivianos com cara de refugiados que embarcavam no mesmo horário para Cochabamba… não sei nem o nome da cidade, mas era uma visão triste. Na espera do meu vôo pra Doha a maioria são senhores e senhoras recém aposentados, prontos para curtir esse mundão de meu deus com 3 ou quatro outros casais de amigos.

Ouvi falar muito bem do avião, que guardava a maior parte das expectativas até então. Depois de istambul e da turkish airlines e do primeiro wifi sobre o atlantico, meus padrões aéreos são outros e eu consigo achar as instalações apenas boas. Tudo bem, não é iberia (que me levou para londres dessa vez).

Consegui janela e ao meu lado o assento estava vago. No corredor, uma argentina que não quis nem eye contact muito me menos papo. Logo dormi. As refeições do vôo são um presságio da dificuldade com comida que, acredito – terei em toda a viagem. De tudo o que me oferecem eu como o pão e a manteiga. Bebo água. Fico com fome todo o tempo que estou acordada. Não ajuda o fato de as minhas duas últimas refeições no Brasil terem sido junk food (eu juro que tentei comer outra coisa) e tudo contribui para que minha fome se misture à culpa e eu não saiba mais se estou com fome ou com gula. Desde que emagreci tenho ficado a bit anoréxica – o suficiente para me policiar a me manter magra, se possível mais magra ainda. É engraçado: passo o ano comendo loucamente mas pensando o tempo todo em emagrecer – estou feliz e amando e tudo pede um vinho, uma sobremesa, mas também um corpo gato pra fazer bonito de lingerie no after hours. E aí o namorado começou a dar a entender que eu podia, quem sabe, fazer mais exercícios, comer melhor. E o namorado me troca pela marombada. E eu minguo, choro, durmo, não como. E eu fico magra e gata e usando size zero da topshop.

But this is not about him or her, or any of this, anyways.

Além da fome e de um sono do qual eu não posso reclamar, o vôo me presenteou com o filme A Praia, aquele que veio depois de Titanic na carreira do Leonardo Di Caprio e me levou histérica junto com minhas amigas, todas nos seus 14 anos, ao cinema. Lembro de não ter gostado, mas esse filme tem aparecido dia o outro na minha cabeça pois ele se passa exatamente na tailândia. Não resisto a reassistir e realimentar meu medo, minha apreensão, essa noção do total desconhecido à minha frente.

Já foi. Vambora.

Ao chegar em Doha me lembro muito do Daniel, que passou por aqui rumo à Europa e contou detalhes do aeroporto. Logo na decida do avião começam os sinais de que estou, mesmo, sozinha no oriente médio. Homens organizam as filas falando alto, gritando. A própria fila (enorme mas super ágil) é 99% masculina e as poucas mulheres estão acompanhas e cobertas por véu. Tudo bem, é um aeroporto cosmopolita e não vejo nenhum olhar de estranhamento. Tudo é muito cheio e dá para ver um congestionamento interminável de taxis esperando para buscar os passageiros. Como a Ásia é povoada, quanta gente, meu Deus!

Ao trombar com um café Costa, aquele que existe pra todo lado na europa, prevejo meu novo comportamento alimentar: peço de um tudo, pra viagem. Não sei o que me espera, além de um wifi grátis abençoado que me permite dar notícias. Sou refém do instagram, do forsquare (principalmente quando estou em lugares “raros”) e um pouco do facebook. A apreensão de fb na verdade é menor pois não há o que esperar de ninguém. O coração está vazio, pelo menos na terra de Zuckerberg (quem diria, logo ele).

No último trajeto percebo que estou cada vez mais só. Acabou a legião de senhores e senhoras brasileiros – a mistura de nacionalidades comporta praticamente todas que estão da tailândia para a esquerda no mapa. Meus joelhos doem pelo peso da mochila, mas sinto um alívio por ter optado por ela. De todos os medos, na verdade, o da bagagem é constante. Trouxe muito? Trouxe pouco? Não terei espaço? Olho pelo reflexo do vidro do ônibus que nos leva ao próximo vôo e acho engraçado o quanto estou diferente da Lorena que circulou em londres e por são Paulo esses dias. Pareço mochileira, meio alternativa até. Ficaram em casa todas as minhas grifes – as bolsas, os saltos – e eu carrego, além da mochila, uma saia longa com cardigã e um super lenço. Algo meio boho. Algo bem diferente de mim. Olho à minha volta ainda no ônibus e percebo outra meia dúzia de meninas sozinhas, com quase trinta, e essa cara de artsy alternativa globetrotter. Uma delas calça crocs. Eu me pareço com elas, que engraçado.

Em Doha já é meia noite do dia 29 para 30 e eu perdi meu sábado completamente, um 29 de dezembro de 2012 que nunca mais vai existir. Faço dúzias de contas de fuso horário: que horas são no brasil, que horas são na Tailândia, quantas horas restam de vôo, qual a diferença de um país para outro and back. Minha quentinha “de tudo um pouco” cheira através da mochila fechada e o sanduíche grelhado aquece minhas costas. “É fome ou gula?”. Sento na minha poltrona e como, enlouquecida, para desespero do meu colega asiático do corredor. Deveria ter jantar daí a pouco mas já vi que por aqui, nunca se sabe.

Refaço as conta do fuso para decidir se durmo ou se fico acordada – quero evitar ao máximo o jet lag na minha chegada. Assisto ao Homem Aranha. “Tenho que escrever tenho que escrever. Se postergar, não vou lembrar de mais nada.” Durmo. Profundamente. A comissária me acorda para o café da manhã. Então é manhã, afinal.

É manhã mas minha opção de refeição é chicken + fried rice. Café curioso, eu diria, se não fosse a primeira de todas servidas que me agrada. Como rápido e sem modos. Ok, era fome. Ainda no vôo, tento brincar de adivinhar quem poderia estar na mesma viagem que eu. O hub em Doha é praticamente universal, né? Existe alguém nesse avião que eu gostaria que estivesse lá? À minha frente, duas fileiras, levanta um cara alto e nórdico, meio com cara de nerd desengonçado, de óculos. Interessante. Ele mexe na bagagem. Me olha. Eu olho. Tenho exercitado minha capacidade de não desviar o olhar – para mostrar interesse ou até gerar um constrangimento alheio que me diverte – mas não consigo. Ele está acompanhado? Estico o pescoço para ver quem está do lado, parece que não. É um senhor, de qualquer forma. Lá fora é dia, já estamos quase saindo da índia e a visão da janela me dá vontade de visitar a Ásia inteira. Até os lugares que mais me amedrotam. Queria ir para Delhi, Bombaim. Até diria que quero cair no mundo, se já não tivesse caído. Nunca me senti tão livre.

Voltemos o tempo em 3 anos: era o fim de 2009, meu primeiro ano em São Paulo. Quem me conhecia na época sabe as coisas que me marcaram nessa época: a mudança, a Abril, o Paulo. Ok, foi o ano que eu terminei um dos namoros mais importantes da minha vida, o com o Bernardo, mas o Paulo veio logo na sequência atropelando tudo, mudando minha vida, me mudando. Em dezembro, ainda machucada com um término conturbadíssimo, decidi usar meus 35 dias de férias para ir para Austrália. Alguma semelhança?

Não quero que essa viagem repita o que a outra me marcou. Não quero voltar para casa chorando de saudade, não quero mantê-lo presente comigo a cada lugar que passo. não vai ser a primeira vez que eu atravesso o mundo para colocar um ponto final num amor que eu ainda não superei, mas espero de verdade que dessa vez funcione.

Facebook comments:

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>