Pessoas acidentais

Não acredito em almas gêmeas. Tenho birra de pares jurados do além. Aprendi desde muito cedo a probabilidade múltipla de diferentes combinações maravilhosas num mundo com mais de 6 bilhões de pessoas.

(Seria muito chato pensar que eu tenho só um homem perfeito pra mim, e que por azar ele nasceu em Nova Délhi, às vezes numa geração completamente distante da minha.)

Aprendi também, isso foi um pouco mais recente, que muita gente tem não só um, mas alguns pares perfeitos ao longo da vida. O surgimento de um novo não necessariamente rotula o antigo como uma escolha “errada” ou “pior”. Os amores talvez sejam mesmo cada vez maiores, a gente talvez realmente ame muito mais do que antes, e isso deve servir muito mais como estímulo para tentar novamente (quando acaba) do que pra diminuir as nossas experiências (as mais preciosas).

Mas não era isso que eu queria falar. Queria discutir um pouco então a importância do acaso no matchmaking da vida. O que importa mesmo é a rua que você cruza, os lugares que você visitou, o tempo que você esteve circulando no mundo e as pessoas que você trombou no meio do caminho. Não adianta de nada se o amor da minha vida embarcou num trem que eu nunca peguei. Sendo assim, se eu não o conheci, ele nunca será efetivamente o amor da minha vida.

E dadas todas essas possibilidades, talvez o que importa mesmo é a nossa capacidade de ser uma pessoa apaixonante e apaixonável ao mesmo tempo. Quem tem encantos, e vê encantos, tem uma probabilidade, provável, muito maior de se apaixonar. Me lembro um pouco daquela história de “cuidar do jardim para atrair as borboletas”. É uma analogia meio infantil para ensinar o que pra muita gente funciona como chave para achar alguém (ou ser achado, como muita gente gosta de ver as coisas).

Nada disso explica a química, as afinidades acidentais. Não cabe a mim ficar entrando nesses méritos (o mistério é muito mais gostoso). Mas vejo intercessões nas coisas que fazem as pessoas felizes. Todo mundo gosta de sorrisos, de bom humor, de histórias inteligentes. Todo mundo gosta de encontrar qualidades universais no outro (as possibilidades são infinitas).

Apreciar o mundo. Lançar novos olhares. Não perder a capacidade de se supreender. Ser interessado, ser aberto, querer descobrir. Talvez se apaixonar seja ainda mais essencial do que ser apaixonável. Talvez seja mais difícil também. A partir daí, o interesse faz a outra via.

O resto vem na maior facilidade.

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