P. D. of affection

(Originalmente escrito em 3 de fevereiro de 2013)

O último texto começa como o primeiro: olho pela janela e lá embaixo, a Índia. Tinha planejado vir pra cá nessa última etapa da viagem, plano esse que tomou sua atenção (tão disputada, tão aguardada). A gente sabe que no fim das contas não rolou. Não rolou a Índia, não rolou você. O mundo real me puxou pelo pé, as burocracias me passaram a perna e eu tive que voltar a ser a Lorena de sempre, aquela que eu achei que não era mais. Talvez eu seja agora uma mistura dela com essa pessoa nova que apareceu no último mês. Eu gosto dessa menina: ela é sorridente, ela é sensata, ela ouve elogios com humildade e reconhecimento. Ela planeja e tem coragem. Coragem. No francês coragem se mistura com sorte. Sorte é caráter. É ir à luta. Tô indo.

Tô indo enfrentar o mundo real, aquela São Paulo que me estapeia – sou mulher de malandro dessa cidade que quero um dia te apresentar. Olho pela janela e solto um choro que segurei há uns 10 dias. Um choro que não veio por perplexidade, por desconcerto, pela cerveja derrubada após o último papo – ruim – e de você sumindo pela escada. Não é só a Índia que fica inexplorada. É você, do outro lado do mundo. Você aí nessa metade e eu do lado de lá. Que coisa estranha é trombar com alguém tão improvável. Como o mundo é pequeno, meu Deus.

Tenho tido conclusões tão discrepantes sobre esse par de olhos azuis que até evito me estender em análises. Você é tão fragil, e ao mesmo tempo tão confiante. Tão independente e tão cativante. Suas frases feitas parecem espontâneas. Suas inseguranças parecem ensaiadas. Eu passei um mês tentando descobrir quem é você e acho que nunca vou conseguir.

Mas olha só que engraçado: acabei descobrindo quem sou eu.

This is not about you, at all. Você foi meu espelho. Você no seu distanciamento me protegeu. Não há como machucar alguém sem tocar. Imaculado e seguro, imagina só, logo você.

Você já encanta outra multidão, já é reflexo pra outras tantas meninas perdidas – talvez seja justo esse o seu papel. Lembro que a primeira vez que te descrevi pra alguém me alertaram: esse cara é do mundo. Você existe para botar rumo no nosso coração. Para tirar a cabeça do lugar. Para dar sentido à alma, apertada, sofrida. É um clichê imenso falar que você muda a vida de quem te conhece – tão grande que eu já ouvi na fila do avião ou numa parada de beira de estrada.

Tenho certeza que você ri por dentro desse bando de bobos babões mas, acredita, é a mais pura verdade. Eu acabei não indo à Índia mas você garantiu que eu fosse virada do avesso de outra forma, reagindo a tudo que você é – e não é, e talvez seja, e pareça ser.

Te deixo com a sua nova platéia embasbacada, espero que você fique em paz. Não consegui descobrir se você é feliz e muito menos te deixar alguma coisa. Eu tentei. Fica bem, aí do outro lado do planeta. Vai ter gente cuidando de você sempre. Vai ter gente se encantando sempre. E se faltar, eu tô por aí. Fiquei te devendo. Pode cobrar.

(…)

Eu não choro por sua causa.

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(Originally written on February 3rd, 2013)
 
The last text begins as the first: I am in the plane and out the window I can see India. I had planned to come here during this last part of the trip, a plan that took your (so disputed, so expected) attention. We all know it ended up not happening. India didn’t happen, nor did you. The real world happened: bureaucracies caught me off guard and I had to go back home, back to being the same person I thought I wasn’t anymore. Maybe I’m now a mixture of the old me with this new Lorena I discovered during the last month. I like this girl: she is always smiling, she seems wise, she takes compliments with humility and gratitude. She plans ahead and has courage. Courage. In French the meaning of the word courage blends with luck. Luck is character. Character to face the world. That’s what I’m trying to do.
 
I’m leaving to face the life in São Paulo, a city which slaps me in the face – and that I always end up coming back to. Looking out the window, I can finally release the tears I held for almost 10 days. Tears that were held by perplexity and unconfort; by the *awkward* last conversation, the accidentaly poured beer and you disappearing down the stairs. It is not only India that remains unexplored: it’s you, halfway around the world. 
 
How strange it is crossing paths with someone so unlikely. How small the world is.
  
I have had such disparate conclusions about this pair of blue eyes that I’ve tried to avoid dwelling in analyzes. You are so fragile and yet so confident. So independent and so captivating. Your lines seem spontaneous. Your insecurities seem rehearsed. I spent a month trying to figure out who you are and think I never will.
 
But, ironically, I discovered who I am.
 
This is not only about you. You were my mirror. You protected me in your distance: it’s harder to hurt and be hurt by someone you can’t touch. Immaculate and secure, you of all people, who would have guessed?
 
You already enchant another crowd, already serve as a reflexion to many other lost girls – perhaps this is exactly your role in our lives. I remember the first time I described you to a friend and she warned me: this guy belongs to the world. 
 
You exist to give direction to our hearts. To make sense of our restless little souls. It’s a huge cliché to say that you change the lives of those that get to know you – so big that I’ve heard it being said in line while we waited for the plane and/or at a roadside stop. I’m sure you laugh of this bunch of fools – and argues that none of us really know you – but, believe me, it is the honest truth. I ended up not going to India but you ensured that I was turned upside down, just by reacting to everything you are – and what you’re not, or maybe you are, or at least you seem to be.
 
I leave you with your new flabbergasted audience and hope you stay in peace. I could not figure out if you’re happy, much less give you anything. I really tried.
 
 Stay safe. There is always gonna be people taking care of you, no matter where you are. There’s always gonna be people being enchanted by you. And if there isn’t, I’m here. I owe you for everything.

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  1. Eduardo Alves |

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