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Como de costume, meu fim de semana me engoliu. Não adiantou ir pra são paulo antes, nem pegar o avião no sábado cedo junto com o namorado. No fim das contas o tempo é sempre muito curto e atropela a gente.

Ele falou: é muito ruim esse horário no domingo, quando começa a ficar escuro. É mesmo.

Peguei o carro e fui correndo deixá-lo pra pegar o ônibus. Na saída, sozinha, passei ali embaixo dos viadutos perto da rodoviária.

Deitado no chão, enrolado num cobertor velho, um casal encostado no pilar da via suspensa: estavam virados um pro outro, se olhando fazendo carinhos, ignorando qualquer coisa ao seu redor.

Eu nunca tinha visto uma cena tão acolhedora num cenário tão duro. Não tinham nada, nem casa, nem proteção. Mas não estavam sozinhos.

Todo morador de rua parece tão desamparado, mesmo quando é uma família, irmãos, mães com bebês, isso tudo. Nunca tinha visto um casal, uma cena dessas. E não senti tanta pena. Parecia que eles tinham o mais essencial. Tinham um ao outro.

Ver os dois mexeu demais comigo. E estavam ali do mesmo jeito que eu meia hora antes, quando tentava me despedir dele.

No fim das contas todo mundo é  mesmo muito igual.

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