Moleton, carne e queijo


Há alguns meses venho lendo sobre a polêmica das bolsas inspired de moletom com uma curiosidade e fascinação acima da (minha) média, mas nunca senti a necessidade de estender o assunto; tudo estava sendo dito, os dois pontos bem colocados e eu mesma não sabia que lado tomaria em definitivo. Até que vi esse post aqui.Parece que em um segundo, a história que já estava mais que batida (e talvez vencida) tomou uma outra proporção pra mim. Como ainda não vi ninguém adiantar alguns pontos que me surgiram, vou dar continuidade à novela.

Pra você que pegou o bonde andando (que é o caso de vários dos meus amigos – desavisados! – com quem comentei disso), vamos recapitular (a grande maioria, que já sabe a missa de trás pra frente, faça o favor de rolar o scroll).

Era uma vez uma menina chamada Helena Bordon, filha de Donata Meirelles e enteada de Nizan Guanaes. Helena, socialite bonita e bem relacionada resolveu abrir com as amigas Marcela e Luciana Tranchesi (filhas de Mme. Daslu, a famigerada Eliana Tranchesi) a marca 284. A proposta era fazer um esquema fast fashion aproveitando o olhar de moda que elas absorveram (nem que fosse por osmose) durante a vida. Marca jovem, porta-vozes lindas, tudo pra dar certo, ok. Mais ou menos no mesmo mês, Fabiana Justus, filha do homifilha de Roberto Justus, abre, na mesma rua Oscar Freire e com a mesma proposta a sua Pop Up Store. Traçada para um destino de igual sucesso, tudo bem.

A  284 vai caminhando com um reconhecimento ok, frequentemente comentadas no meio, Pop Up idem, cada uma na sua, até que a entourage 284 resolve, numa cartada brilhante, criar uma releitura da antológica bolsa Birkin da Hermés. DE MOLETON.

Que sacada! A bolsa é linda, e vendeu toneladas. Estava sempre esgotada e virou uma linha inteira de produtos inspiradíssimos, a I’m not the original. Em seguida, questão de meses, vai lá dona Fabiana e lança as suas versões das bolsas mais bombadas do momento, a Motorcycle da Balenciaga e a Alexa da Mulberry DE MOLETOM.

A glória. Blogueiras vão ao delírio. Como Fabiana deve bem ter cursado uma faculdade de administração (na FAAP, senhor Google?), absorveu lições milenares de marketing e chamou um monte de meninas espertas que amam moda, amam bolsas, amam marcas e ESCREVEM sobre isso (mais ainda, são muito lidas!) pra ver a novidade. Foi mais coberto que a morte do Papa. Simplesmente genial.
Até aí pouca gente que tinha ousado falar em voz alta:


-Gente… isso aí, não é… plágio?


Bom, era uma bolsinha só né, na 284, tão simpática e engraçada, quase uma paródia, um deboche – sacada incrível pegar um item que é sinônimo do alto luxo e  recriar num material tão cotidiano – que mal fazia? Mas quando a Birkin ganhou as primas da loja vizinha, o negócio tomou tom de polêmica: de um lado, fãs defendendo o direito de ter A TAL bolsa, mesmo não gastando um zilhão e meio de reais (em barras de ouro?) e do outro, quem achasse que isso tudo era armação de um monte de patricinhas falsificadoras. Aí temos os textos incríveis da De Chanel Na Laje e o conciliador O Moletom da discórdia(que título genial!) da Camila, do Garotas Estúpidas, entre tantos outros que foram pipocando (e eu lá lendo tudo!). Quem tinha sua opinião, muito provavelmente continuou com ela no final e a história esfriou, c’est la vie, vamos aceitar (e quem quiser, comprar). Nesse tempo mais uma dúzia de marcas criaram as suas próprias versões (muitas igualmente propagandeadas pelas mesmas blogueiras), eu passei a dar tchau quando via uma na rua (impossível não reconhecer) ou no trabalho (até repórter de revista de moda tem coleção!) e a vida seguiu seu curso. A notícia ficou velha, virou piada da Katylene,  a bolsa continuou vendendo e pronto.

Na semana passada, um episódio esquentou o caso: A Hermés abriu uma liminar pra tirar a pioneira Birkin de moleton da 284 do mercado. Foi o suficiente para  a turma do I told you so soltar o verbo novamente.

Nem deu tempo da gente começar a se perguntar se era o fim das bolsas de moletom e no meio de uma SPFW, Fabiana Justus me resolve – brilhantemente diga-se de passagem – dar pinta na Bienal com mais um inspired: uma sapatilha idêntica à Valentino que a gente está vendo por aí (e reconhecendo e desejando) há uma temporada, só que da Pop Up. Quando vi afoto da Fabiana com o negócio no pé, eu que nem tinha muita opinião formada na história toda, faltei só dar cambalhotas em frente ao computador. Era incrível, simplesmente genial, era clímax de filme de ação quando você descobre que o bandinho é mocinho ou o contrário. Era bom demais pra ser verdade.

E isso porque mil perguntas e ligações surgiram na minha cabeça. Tantas que achei pertinente escrever metros de linhas explicando tudo só pra jogá-las aqui:

Pra começar: até agora 284 e Pop up são citadas sem grandes ligações. Ninguém parou pra falar (pra pensar, hei de ter fé que alguém já pensou) que as trajetórias são muito parecidas, a começar pelas fundadoras. Mais do que duas socialites que vivem na mesma cidade e frequentam as mesmas turmas e lugares (Welcome to the O.C., bitch!), o fator colégio é determinante para confirmar a suposição.

As duas empresas, além de ter a mesma proposta, preços e lançamento em datas e endereços parecidos, até expandiram simultâneamente para a segunda loja na área nova do shopping Higienópolis. É o mesmo modelo de negócios. Tanto que as duas marcas foram muito bem divulgadas desde o início, sim, mas encontraram reconhecimento total na tal bolsa de moletom. É o carro chefe até hoje.

E ai? A pergunta que fica é: essas meninas são amigas, apenas concorrentes, parceiras ou absolutamente rivais?

Isso se torna relevante quando outros fatores entram na conta: Heleninha Bordon, no 2o semestre do ano passado, deixou a 284 sendo tocada pelos sócios (já era um sucesso andando com as próprias pernas) e foi fazer futuro em NYC. Depois de alguns meses, ela ganhou um estágio no escritório novaiorquino da Valentino, prontamente anunciado por ela (e por seus amigos) no Twitter. Helena, ao que tudo indica, ainda está trabalhando pra Maison Valentino, a marca que é a nova vítima da concorrente, a Fabiana.

A trama vai tomando corpo. Como se não fosse suficiente o constrangimento zero pela carcada legal que a 284 tomou, será que Fabiana escolheu ou nem pensou (e existe esse tipo de ingenuidade empresarial?) na questão Heleninha-Valentino?

Porque, é claro, se a Helena quiser ferrar a concorrente e tomar as devidas providências, ou então fazer valer a regra “se eu não posso ninguém pode”, está com a faca e o queijo na mão.

A outra coisa que não vi ninguém comentando diretamente, no caso das Tranchesi é: e a história da carreira da mãe na confusão toda? Os mais raivosos falaram sim “Filha de sonegadora só podia ser falsificadora” e tudo mais o que podiam, mas e parar pra pensar nas marcas que a Eliana representa com a Daslu? Elas estão na mira do inspired da 284?

É Celine, Chanel, Hervé Leger, a própria Hermés e por aí vai. E mesmo que nenhuma coincida, como as marcas internacionais exclusivas da Daslu veriam o caso inteiro? Será que elas concordam com a validade independente do item inspired? Qual o papel das representantes de marcas internacionais em protegê-las desse tipo de cópia (ou pelo menos de não colaborar, mesmo que por tabela, com isso)?

Eu fiz 4 semestres incompletos da faculdade de design e só por isso já posso afirmar a minha total falta de propriedade pra entrar na definição clássica e correta de um plágio nesses casos. Até a revista VEJA deixou a pergunta no ar no caso do logo das Olimpíadas e a discussão é infinita (e igualmente recorrente) nos blogs de publicidade. Pessoalmente, vejo inspiração em TUDO na moda (desde coleções, itens, traço até estilo pessoal)  e muitas cópias sem-vergonha. Na maioria dessas, sempre tem uma coisinha diferente, tipo jogo dos sete erros (ou mesmo várias coisinhas diferentes), o que dá graça pra historia. Ouvi repetidamente o argumento que “todo mundo copia a flap ou a 2.55 da Chanel e ninguém fala nada!”, o que é verdade em termos. Toda vez que vou na C&A vejo uma bolsa de matelassê dos mais variados materiais e com alça de corrente. A cópia para por aí. As proporções e acabamentos são, na enorme maioria das vezes, completamente diferentes. No caso do moletom o mesmo argumento se replica repete, considerando que as marcas de luxo não vendem bolsas desse material.

O problema é o seguinte: todas as bolsas inspired tem o design, proporção (até as medidas exatas!), detalhes de acabamento (de desenho, não de manufatura) IDÊNTICOS às bolsas originais. Muitas estão sendo feitas de couro, couro mesmo, nada de couro fake. Couro que pra todo mundo além dos experts, é bom o suficiente para estar numa bolsa de grife. Não vai ficando tudo absolutamente igual?

Outro dia, parei uma repórter de uma revista de moda no elevador porque ela carregava uma Box Bag da Céline de couro preto e eu imaginei (que preconceito da minha parte!) que ela não seria  exatamente Céline. E não era, era da 284. Isso só aconteceu porque sei quanto ganha uma repórter eu estava muito a fim de uma igual e achei que ela poderia saber onde tinha. Se fosse uma desconhecida, teria certeza que era Céline!

Como a gente defende o argumento da inspiração nesses casos? O desenho é absolutamente igual, o material o mesmo, cores idem. A maioria das bolsas replicadas não possuem logo visível na parte externa mesmo, acaba que nem isso faz diferença.

As outras marcas que copiam à exaustão (oi, Zara!) o fazem com as diferenciações necessárias justamente porque não são bobas e se protegem. Existe sim uma linha tênue entre cópia e inspiração mas, pelo menos nas proximidades dessa linha há o benefício da duvida – essas marcas ficam aí. Alem disso, nem a Zara, a Arezzo e nenhuma das outras mencionadas frequentemente como exemplo nos argumentos são conhecidas como são por causa de uma réplica. A própria Arezzo lança dezenas de bolsas de design próprio todas as estações e no meio delas, uma ou outra tem cara de que a gente já viu por aí. Sem nenhum destaque, nada. Não é o caso da 284, Pop Up, LAX Store e tantas marcas que a gente só ouviu falar por causa de uma tal bolsa de moletom.

Então se eu não tenho um zilhão e meio de reais em barras de ouro tenho que me contentar em ver na revista e achar bonito, é isso?

Pra isso sempre tivemos a 25 de Março e as Chinatown da vida. Cópia por cópia, estava lá o tempo todo e aposto que você nunca quis. Eu mesma tenho uma anedotas muito esclarecedoras de bolsas falsificadas que valem a pena dividir:

Tenho uma amiga muito chique com muito cacife pra ter uma Flap da Chanel. O que ela tem de jóia é uma loucura, um par de brinco a menos e a Chanel era dela. Só que ela resolveu priorizar o dinheiro  e ainda não tinha rolado de comprar. Normal. Um dia ela foi na 25 comprar fantasia e deu de cara com uma Chanel paraguaia bem digna, vermelha. E ela tinha certeza que nunca compraria uma dessa cor. A minha amiga é clássica pra caramba, uma lady. Mas a vermelha era tão igual e tão linda! E ela COMPROU a bolsa. No mesmo dia a gente foi pra balada. Eu com a minha flapzinha suada pretinha e ela com aquela coisa vermelha que me saltou à vista já dentro do carro escuro.
- Meu Deus, pára tudo, que incrível!
Mexi, abri, nem notei e ela soltou:
- É falsa, amiga, comprei hoje mas tô odiando. Me deu mais vontade de ter a de verdade.
-Mas é igual! Tô chocada!
-Não importa, eu sei que não é.
Na viagem seguinte que ela fez, acabou trazendo uma 2.55 de verdade. Juntou dinheiro (gente chique não é necessariamente trilhardária) e comprou feliz.

É bem interessante sempre avaliar se a bolsa, o sapato o sei lá o que da grife da vez é lindo mesmo aos seus olhos independente de marca. Se a Alexa Bag é linda independente da Alexa Chung. Se não for o caso, provalvemente a copia não vai dar onda – vai ser sempre uma cópia (mesmo que só você saiba) e você vai continuar querendo a original.

Cópia de fast fashion é igual fast food. Você passa pelo Mc Donalds, vê a batatinha crocante soltando fumaça e acaba não resistindo. Na hora de morder o hamburguer, o queijo cheddar derrete e é uma delícia. Em seguida dá aquela sensação de ter ingerido uma caixa de papelão.


O fim da história 284/ Pop Up/ inspired eu ainda não sei, mas vê aí dois moletons, alface, queijo, grife especial, estampa liberty e um pão com gergelim.

Quem aceita um pedaço?

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Comments
  1. Nathália |

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