Meus dois centavos sobre a chegada da Forever 21 ao Brasil

Começou com o tapume lá no shopping Morumbi. Isso foi ainda em 2013 e a mulherada pirou. Eu postei no Instagram. Histeria geral.

A marca demorou para divulgar maiores detalhes. Meses. Ouvi no mercado que a história do tapume foi um faux pas do próprio shopping e que a F21 queria manter tudo em segredo por mais tempo. Faria várias ações de lançamento. Sabe, acho que nem precisou.

Na semana passada comecei a ver mais comentários sobre a data de abertura: dia 15, amanhã. O soft opening seria na quinta anterior, ontem. A minha roomate gritou do outro quarto: A peça mais cara vai custar 139 reais.

Comemorei junto, confesso. Temi pelas varejistas do Brasil.

Sou consumidora assalariada. Eu quero preço bom e coisa bonita. Eu quero que minha compra valha. Vejo camisa de poliéster mal costurada por três dígitos aos montes em qualquer shopping de São Paulo. Acabo comprando na H&M, F21 e Urban Outfitters nas minhas viagens. Ou então pago o triplo por uma de seda. ( O que nem sempre é bom porque dá um super trabalho para lavar e manter, mas isso são outros quinhentos.) A consumidora fashionista assalariada enlouquece com a chegada da Forever 21 a três quilômetros de casa, afinal, o que a gente tem de opção hoje é um caro de má qualidade ou um muito caro que, com sorte, seja melhor.

(Tem, sim, gente fazendo coisa bem boa por aí, mas ao mesmo tempo tem porcaria tentando se posicionar como “luxo” através do preço nas alturas. Não é a coisa mais fácil pra compradora eventual diferenciar as duas coisas.)

Gastar menos, comprar menos, comprar melhor. É aquela conta que eu já discuti, do número de vezes que você usa versus o preço pago. Pois bem. Na loucura do 19,99 e da oportunidade única (ou pelo giro de produtos, ou pela ocasião da viagem mesmo) a gente leva um monte de tralha. Da Forever 21 tenho coisas que uso pra caramba, sim. E que são razoavelmente boas para durar, para bater. Não tiro o fast fashion da minha nova equação de consumo, não.

Só que eu não sou só o público alvo, a ex dona do dinheiro que entra no caixa, a menina que leva a roupa nova pra casa e estreia na sexta à noite. Eu também estou do outro lado, de olho no mercado de moda como um todo. Existem outros fatores a considerar.

Uma regatinha de algodão (cada vez menos) e poliéster (cada vez mais) custar três dígitos numa marca básica nacional é um absurdo. Mas a mesma peça custar menos de dez reais também me dá um nó. A conta não fecha. O oba é só dez reais! leva sempre um pedacinho de culpa junto. Alguma coisa na cadeia produtiva tá fora do eixo. E duvido que seja matéria prima, já que todo mundo tem acesso a mais ou menos as mesmas coisas. Nem negociação por escala: é regra produzir variedade, mudar constantemente, fazer poucas peças de cada modelo, cor e estampa.

A questão da mão de obra escrava foi discutida extensivamente na época do escândalo da Zara ou do grupo Cori. Existem opiniões bem bacanas por aí, como essa. No caso das marcas gringas pode nem ser escrava per se, em vários países da Ásia é legal trabalhar por menos de um dólar por dia, em jornadas de 12 horas ou mais. E isso não é uma questão só da moda: todos os gadgets e cacarecos que a gente usa o tempo todo estão na lista também. Dá pra fugir disso? Vai pro mato ou não dá.

Pesquisando um pouquinho sobre o Grupo Zara, a própria F21 e varejistas brasileiras – como a Riachuelo – a gente percebe, talvez, que o outsourcing da produção para a Ásia pode nem ser uma questão tão presente assim. Segundo os donos e diretores e RPs e todos que respondem pela bagazza, para que o ciclo de produção seja curto e a roupa da moda chegue já às araras muita coisa tem que ser feita mais perto: na Europa, na Califórnia. No Brasil, como no caso dos bolivianos. Um respiro pras crianças de Bangladesh? Na hora de passar no caixa eu, iludida, me convenço que sim.

No caso da F21 até dá para continuar produzindo na Ásia: já que eles já avisaram as coleções chegam aqui com o delay da estação, haveria tempo. O suposto outsourcing poderia cobrir os custos extras que eles têm com a operação brasileira. Só especulando.

Sobre as fast fashion que aqui já estavam – Renner, Riachuelo, Marisa e C&A – eu já falei: temi pelas coitadas. Pensando mais meia hora, coitadas nada: a briga é feia mas pode não ser dramática. A H&M, por exemplo, ameaça entrar no Brasil há bons 3 anos. Foi tempo para a galera daqui se organizar, pensar no que fazer, pesquisar e implementar uma estratégia. A Riachuelo correu pra Oscar Freire. A C&A bomba em co-branding nas coleções especiais. A Marisa se espalha pela Avenida Paulista. Enquanto isso a estratégia da Forever 21 pode parecer “tudo a mesma coisa” mas tem suas peculiaridades: está vendendo barato? Está. Mas num shopping A/B. No caso do Village Mall, onde é a próxima loja, AA. É mais ou menos o modelo que a Farm implementou há mais de uma década. Isso mantém a marca aspiracional, o que é excelente. Mas também fica inacessível pra muita gente.

A Forever 21 tem preço de Besni, mas ainda não vai vender pro grande bolo da Classe C. Vai ganhar rios de dinheiro? Vai. E ao mesmo tempo as lojas mais estabelecidas, espalhadas por esse Brasilzão de meu Deus vão mantendo o que é seu. Daqui a uns dez anos a gente conversa de novo, pode ser que a coisa ande para um lado diferente.

Eu não tenho respostas. Fico aqui assistindo as marcas pipocando, a blogsfera tagarelando e vou ligando os pontos. A minha decisão de comprar menos é pessoal, uma coisa para a minha paz financeira, espacial e de espírito. De todas as coisas que não sei, sei menos ainda se vou conseguir resistir ao furacão Forever 21.

Quer saber mais? Tem outros centavos bem pertinentes (alguns novos, outros antigos) em:

http://www.hojevouassimoff.com.br/2014/03/14/a-chegada-da-forever-21-no-pais-dos-precos-altos/

http://juliapetit.com.br/moda/o-fenomeno-forever-21/

http://www.fashionismo.com.br/2013/02/a-historia-da-forever-21/

*Atualizando!* O ponto de vista do Valor Econômico. 

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