Fui trocada por uma puta

Perdoe minha franqueza, vou te poupar de eufemismos. É esse o nome que tem. Acho melhor deixarmos de dedos, eu e você, para lidar com assunto tão cru.

Nunca tinha conhecido uma puta. Quanto mais imaginei ser trocada, num estalar de dedos, por uma. That’s a first.

Ouvia a música da Geni, sentia sua dor, sentia pena, e pedia para não jogar pedra. Uma ou outra personagem de novela se inclui no grupo, vá lá. Bruna Surfistinha? Ouvi falar. Todas tinham minha compaixão distante, um olhar tal como sobre a miséria na África.

Mas pense você que logo hoje ainda exista o drama perda do moço para uma mulher da vida.

Aconteceu. É nóis na belle époque. Vem, gente, viver comigo essa emoção.

Recorri à literatura. Como não previ uma história tão comum? Dei como caído em desuso um dos enredos mais recorrentes de todos os tempos. E que não tem nada de datado.

A verdade é que há mais poesia na história da puta do que de uma menina comum, dessas que estudou, ralou, mas teve sorte e estrutura para crescer na vida. Essa história não tem força, ela não fez mais que a obrigação.

A puta sofreu, viveu e passou por tudo a ponto de desapegar do bem mais primordial, o próprio corpo. A puta tem Bukowski correndo na veia. Coitada de você, achando que tinha dramas, achando que tinha medos e perguntas. Isso não é nada. Você não viveu.

A puta tem crianças para criar – coitadinhos filhos da puta que merecem a sua compaixão e, quem sabe, um novo pai.

Da minha dor de Amélia, desse papel que nunca imaginei ter que viver, o vejo hipnotizado, um homem brilhante levado pelo poder da meretriz. Desafiando o mundo que sempre obedeceu – como bom menino que é – em nome do amor improvável e justo por isso mais nobre. Previsível. Quem escreveria diferente?

Nós, as não putas, nesse meio tempo fizemos o que foi possível pra ser mais parecidas com elas. Pela força. Pela independência. Pelo poder sobre o próprio corpo. Pela capacidade de enxergar a realidade – da vida e dos homens. Mas há ainda uma diferença crucial. Não adianta colocar cinta-liga e fazer aula de pole-dancing, ou beijar 20 em Salvador se no fundo, quem diria, você é ainda moça casadoira. E, pode falar, você se orgulha disso.

É, meninas… não deu. Elas reinam soberanas. A gente se perdeu: nem lá nem cá. Perdeu tudo no meio do caminho.

E nesse processo esquecemos de notar que a puta que é mulher de verdade. Na vida real ela é paisagem – no máximo uma chacota. Mas em todas as histórias que ouvimos, é ela que ganha a nossa predileção.

(Julia Roberts tem toda uma carreira a agradecer a isso.)

Na antítese, na comparação, fiquei sozinha, avulsa. Uma. Aquela uma, do Chico. Enquanto ela já se deitou com os seus.

No caso, com o meu.

Se eu tivesse lido mais Bukowski eu já saberia.

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