From fifty to five

Entre cinco páginas e mais outras cinquenta, pensei em te escrever. Pensei em falar de posse, de intercessões, da ausência de intenção de cruzar o seu caminho.

Esse não é mais o seu caminho.

Não escreveria para te convencer, não. Não quero influenciar a sua opinião. Não quero arrancar de você um consentimento. Quem tem que me dar o aval, uma permissão, sou eu mesma.

Será difícil me fazer acreditar que não estou tomando absolutamente nada de você.

Falar de posse de gente é muito complicado, porque isso ao mesmo tempo que não existe, não sai da cabeça de todo mundo. A gente acha que tem os outros, e por muito mais tempo do que se a gente pudesse ter alguém, enfim. A gente continua se dando o direito de manter a posse dos outros até o dia que resolva, sei lá, passar uma escritura. Se resolver, um dia.

A gente pode nunca ter, possuir ninguém; mas perder as pessoas, a gente perde. Pelo medo da pessoa sumir no mundo, ou pelo ressentimento por ela já ter sumido a gente se convence: foi, mas ainda é meu. Amarra uma etiqueta imaginária com o seu nome no outro, para reclamar propriedade quando bem entender.

E no grande second-hand de gente que o mundo acaba sendo, não cabe a nós decidir se guarda alguém no fundo da gaveta ou se estende no gramado ou na garagem, pra quem passar ver: ah, esse tudo bem, ela não quer mais.

Você não faz parte da minha vida. Pode ser que um dia, no turbilhao das coisas, a gente divida dias, momentos, palavras e uma memória. Por enquanto, você não existe. Eu não tenho que pensar em você, em me preocupar se te causo uma dor, uma raiva, um transtorno.

Eu não devia existir na sua também. Nem bem, nem mal. O mais provável é que ela não seria muito diferente, como você acredita, se você nunca tivesse ouvido meu nome.

Por favor, siga o seu caminho, Um outro, qualquer outro. Sem usar o meu próprio argumento para justificar em persistir no mesmo.

A escolha não é sua, e nem minha. Cada um é dono apenas de si.

Se você não aceitar, eu também não consigo aceitar.

E não importa as páginas. Cinquenta, ou cinco.

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