FPS 30

No almoço de família contei da minha vontade de ser oradora na minha formatura. Reconheci que era mega improvável: eu nunca fui assídua da minha faculdade e, depois do ano trancada, nem conheço direito quem vai formar comigo.

Mas eu quero muito que alguém fale alguma coisa relevante naquela colação. Em todas as formaturas que vou, de economia principalmente, é só arremesso de teoria, uma disputa de quem sabe mais, com o incrível resultado de aborrecer a família e os amigos dos formandos.

Não dou conta.

As pessoas estão lá para comemorar essa etapa na vida de alguém que elas gostam muito. A vó do formando X não quer saber da neutralidade da moeda. Não quer saber do churrasco que aconteceu no 1o período. Não quer saber da disputa política entre os professores. Ela quer é ouvir que o neto dela vai ser uma grande pessoa, e muitos encorajamentos nesse sentido.

Quer ouvir coisas sobre a vida, simplesmente.

Lembrei, também no almoço, que aquele vídeo famoso do Wear Sunscreen era, inicialmente, um discurso de formatura. Começava com Ladies and Getleman of the class of 97. Um discurso pertinente de formatura. Falava das coisas que importam.

Meu avô não tinha visto o tal vídeo do Filtro Solar. Ele tem 80 anos, e parecia que, ao assistir pela primeira vez, aquelas palavras faziam mais sentido pra ele do que pra mim, quando assisti com 14 anos.

Meu avô acabou de voltar das geleiras no extremo sul do continente, a Terra do Fogo, o ponto mais sul de terra além da Antártida. Queria muito mesmo ir à Antártida, mas reconheceu que não dava.

Hoje ele pulou de ponta na piscina daqui de casa e ficou nadando e brincando por mais de uma hora.

Penso que nem era para eu ter conhecido meu avô. Há 30 anos ele enfartou, numa época que enfartar era coisa muito mais séria que hoje e só se operava lá em São Paulo na Beneficência Portuguesa.

Acho que é por ter isso na cabeça que ele é a pessoa que eu tenha mais medo de perder. Um medo constante de não ouvir mais as histórias no almoço.

Hoje ele contou rindo, junto com a minha vó, da crise de namoro que tiveram pela dificuldade de conseguir completar uma ligação de telefone de Belo Horizonte pro Rio de Janeiro, 50 e tantos anos atrás.

Há 10 anos meu vô enfartou de novo e operou de novo, já em Belo Horizonte. Nunca deu desculpa pra nada por isso. Não parou de comer bife com batata frita todos os dias, ou de comer chocolate. Parou de fumar, reconheceu que não valia mais a pena. Me deu uma lição uma vez na argentina, quando eu dei bronca pelo tanto de manteiga que ele colocava no pão. Prefiro viver meus dias do que mais dias. Nunca mais esqueci e nunca mais critiquei.

É a pessoa que eu mais pareço da família, ou a que eu mais gosto de falar que pareço. Admiro muito. Fui pra mesma faculdade que ele, gosto de viajar que nem ele, aprendi tudo de cinema com ele, pago pau pro seu senso de humor e sensatez também.

Com ele aprendi que envelhecer não é necessariamente desapegar da vida. Não tenho idéia como é ter um corpo que não acompanha mais a sua cabeça, a mil. Obviamente é muito melhor manter a cabeça jovem, ter planos e vontades, mas isso significa também não aceitar a realidade da finitude. Reconheço a dificuldade. A gente já tem esse medo desde sempre. Meu vô nunca escondeu o medo dele.

Ele conta que o maior arrependimento da vida dele é não ter aprendido a falar inglês, para viajar melhor e para ver os filmes melhor também. Adora lembrar que eu falo, e bem. E para um arrependimento de vida, esse é um bem aceitável.

Não atrapalhou, por exemplo, hoje para ele ver o vídeo; nem foi necessária a versão dublada tosca do Pedro Bial. Meu avô odeia filme dublado.

Por esse momento, fiz mais questão de um discurso pertinente na minha colação. Por todos os avós. Eles merecem. Todo mundo merece.

Pelo menos algo a mais que teorias pós keynesianas.

O que importa mesmo é falar da vida.

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