Difícil cotidiano

Meus dias estão desconfortáveis. Desde que parei de trabalhar me sinto sem lugar, sem hora, sem gente. De segunda a sexta não sou ninguém.

É péssimo.

Lembro da época que não importava muito que dia da semana era. Que no sábado no máximo eu descansasse, quem sabe saísse durante o dia com minha mãe, e até não saísse à noite, podia ser. Na quarta ia no cinema, ou na segunda, ou um dia qualquer porque todo dia podia sair e ficar junto.

Todo dia podia ver gente. Podia ter almoços, ter piadas, ter um encontro no corredor ou no cafezinho ali em cima pra relaxar. Podia ver a rua, cantar no trânsito, se irritar com a falta de vagas – mas isso tudo faz parte. Podia um japonês sem hora, uma comprinha na farm depois do banco, podia ficar batendo papo um pedacinho da aula chata. Podia dormir de pé colado qualquer dia que se sentisse um pouco sozinho ou amoado – ou por motivo nenhum.

Todo dia tinha produto. Tinha descoberta, tinha novidade, tinha uma fofoquinha para divertir. Tinha trabalho e problemas resolvido – que por acaso é a minha penúltima nova paixão e eles me fazem muita falta.

Hoje meu cotidiano não tem tanta graça. Não tem nenhuma esquina e nenhum encontro. Minhas surpresas chegam no meio do dia, como incentivos, pelo celular. Meu dia passa sorrindo porque a sexta feira virá, cada vez mais perto.

Mas viver pela sexta feira não é viver, enfim.

Quero um cotidiano mais determinado e mais permeado de coisas gostosas e espaço pra criar. Quero menos sono – o mesmo tanto de sonho, talvez, se não for atrapalhar muito.

Se eu tiver uma semana cheia que me motive, eu poderei ter a vida que sempre quis. Por todos os motivos que sempre quis ser solteira, aliás.

Vou ter também duas vidas diferentes e intensas, vou ser inteira e ter alguém, vou estar mais perto de me sentir completa.

Poderia ser perfeito, nao poderia?

Estou sentindo falta, muita falta, de gente, de horários e disposição.

Fica meu pedido. Por um cotidiano mais amigo.

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