Como eu fui parar em Paris

Tenho certeza de que sonho durante todas as minhas muitas horas de sono. Lembro de muita coisa: algumas me fazem acordar perturbada e mudam meu humor. Outras também, mas dessas eu não consigo lembrar.

Desconfio que foi por causa de um sonho que levantei de sopetão num domingo cedinho e peguei o computador no colo: um inbox no Facebook sairia dos meus dedos antes de eu realmente pensar:

- Whereabouts in the world are you? Probably coming to London / Paris for a meeting this week. Any chances you are around? 

Eu não tinha viagem planejada e muito menos reuniões. Era meu jeito, como sempre, de perguntar ‘onde você tá?’ com uma desculpa plausível. Era meu jeito de achar confusão – e, olha, nisso eu sou boa, viu.

No dia anterior, é verdade, eu tinha ensaiado uma ida relâmpago para essas duas cidades, para acompanhar uma parte da família que faria turismo. Depois de um sábado afogada em busca de milhas, desisti. Mas minha cabeça, veja bem, nem tanto. Daí veio a mensagem.

O fim de semana passou, a família viajou. Na segunda feira, a resposta:

- I’m in Venice. In Paris on the 27th and then London a few days later. How are you?

Melhor não me mexer, nada de movimentos bruscos ou mesmo suspiros de espanto. Melhor nem responder. Silêncio.

Dois dias depois, eu recebo:

- Coming?

E assim eu acabei em Paris antes do domingo, como se fosse Atibaia ou o Guarujá. Charles de Gaule logo ali. Como eu sempre preguei, o mundo a um vôo de distância. Poupança é pros fracos. Responsabilidade também.

É verdade que a minha família estaria em Paris nos dias anteriores, partindo justamente no 27: uma prima queridíssima que nunca tinha ido à Europa e meus avós, com 85 anos, ainda com energia para peregrinações. Qualquer coisa vale pela experiência de levar meu avô ao Pompidou e ver minha prima bebê conhecer o Orsay pela primeira vez. GG podia nem aparecer, sabe. Eu bem estava me confortando, baixando minhas expectativas, me dizendo que ele não acharia hora entre tantos compromissos. No meio tempo, descobri uma feira de beleza onde poderia fazer pesquisa pro trabalho – so called meeting – e entrei em contato com mais dois ou três queridos que lá vivem/estariam. Worst case scenario? Eu sozinha andando por Paris.

Pas mal de tout.

Não era uma boa hora para eu viajar, é verdade. O ano até então foi um caos, minhas finanças estão em frangalhos e eu acabei de vender um apartamento do qual ainda tenho que sair. Comecei um trabalho novo há duas semanas e há pouco menos tenho saído com um mocinho (finalmente alguém interessante) que me levou de volta à rua, aos drinks, à vaidade, gargalhadas, beijos, filmes e madrugadas. Não era hora de correr atrás de uma paixão platônica do outro lado do oceano.

Mas se eu fiquesse quieta não seria eu.

Tenho um amigo que diz o seguinte: começar a namorar é igual viajar. Tem que comer tudo que está na geladeira antes. Foi essa piada que soltei nos dias seguintes, para ironizar e esconder que eu estava fugindo do risco de gostar de alguém aqui perto. Alguém que pode me machucar. A paixão platônica, intocável lá do outro lado do oceano, é muito mais inofensiva. É teoria da distração, é um tempo pra respirar. Eu não preciso de ninguém mais além de mim para me sufocar, é bem essa a verdade. Foi muito tempo catando caquinhos para colocar tudo a perder assim, no terceiro date. Fugi do continente de tanto medo.

E foi essa sequência de acontecimentos que me levou ao celular que tocou enquanto eu passeava pelo Boulevard Saint Martin.

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