Clac clac clac

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Abbey Lee Chanel Spring 2010
Chanel Spring 2010 | Fonte: Style.com
Chanel clogs spring 2010
Chanel Spring 2010 | Fonte: Style.com

Quando eu vi essas imagens pela primeira vez, em outubro do ano passado, só podia pensar que o Karl Lagerfeld estava brincando com a nossa cara. Senhor Karl, você já me fez pintar as unhas de verde, não está satisfeito? Babuchas? Mesmo? O terror se repetiu em mais da metade dos quase 70 looks. Pra quem não tinha conseguido acreditar de primeira, estava confirmado, era verdade. E agora elas chamam “Clogs”, mesmo em português. (Coisa chique, claro.)

Pra mim, foi como um grande dedo médio – do pé – esfregado nos narizes da primeira fila (e em todos os outros, logo que o desfile subiu no style.com). Como se ele se desafiasse: “Eu consigo fazer vocês desejarem qualquer coisa. Até o mais odiado calçado”. E agora, quase um ano depois, o que eu vejo é que sim, mein führer, você definitivamente conseguiu.

É a confirmação de uma suspeita que já me assombra há alguns anos, desde esse post profecia aqui. Não há o brega. Tudo pode ser desejável, até isso.

Naquela mesma semana eu percebi que a briga ia ser feia mesmo. Nos dois dias anteriores, Phoebe Philo (Céline) e Miuccia (Miu Miu) já tinham mostrado releituras dos tamancões, mesmo que nada tão literal quanto os da Chanel. Marc Jacobs também fez para a Louis Vuitton (ainda mais polêmicos do que todo o resto). Qualquer uma dessas marcas consegue emplacar tendências, sozinha, temporada após temporada. Se elas se juntaram, nós, pobres consumidores de moda, não teríamos a menor chance.

Em poucas semanas eu, que admito ser percentil 99 em vulnerabilidade a novidades, me peguei querendo uma coisas dessas. Voltei inúmeras vezes a encarar a imagem – a mesma daquele fatídico desfile, reproduzida em todas as revistas e blogs nos meses seguintes – e só consigo acreditar que quero mesmo porque sinto o tempo todo esse desejo incontrolável gritando dentro de mim. Eu quero uma babucha. Ops, um clog. Eu preciso desse naco de madeira debaixo dos meus pés, combinando com um vestidinho de estampa liberty, ou um jeans surrado, ou qualquer uma das 25 combinações que já imaginei (e vi em imagens de street style repetidas por todo o canto) para acompanhá-lo. Eu quero, eu preciso.

Mas o que eu não consigo superar é o abuso. A idéia do sorriso debochado do kaiser. No meu consciente já tão sufocado por esse desejo irracional eu ainda sei que esse sapato é feio demais (e desconfortável e barulhento). Se eu me render a essa tendência absurda vai ser o xeque-mate. Até consigo ouvir a gargalhada de Karl, alta e seca. Eu tenho que resistir. Eu não admito participar de mais uma piada interna desse senhor. Mesmo que todo mundo já esteja participando.

Vá lá, não é esse drama todo. Esses últimos anos a gente já pagou língua pra tanta coisa, não é? Ombreiras, cintura alta (que todo mundo chamava de “santropeito”), cuissardes, dock-sides e até os saltos de acrílico que estão aparecendo por aí. Todo item de moda que foi alvo da nossa maledicência na última década voltou a povoar nossos corações e vontades. Mas é por isso mesmo a minha resistência: de certa forma a babucha é a fronteira final. Foi outro dia mesmo que todo mundo caiu em cima dos pobres Crocs que, apesar de feiosos, têm enorme utilidade em blocos cirúrgicos e são bem adoráveis em crianças. Eles, pelo menos, são inovadores, modernosos e, vale lembrar, parecem muito mais com os tamancos holandeses do que uma coisa dessas.

A minha aversão pelos clogs toca em um justificativa muito pouco racional: uma lembrança vergonhosa da minha pré adolescência. Quando eu tinha uns treze anos, tamanquinhos de madeira eram uma febre no meu colégio, no clube, nas festinhas. E eu tinha um que amava, bem estilinho Dr. Scholl. Passei um mês de férias inteiro com ele nos pés, a minha mãe vivia criticando o “clac clac” deles (que realmente é irritante) mas eu nem ligava, era feliz. Só que um dia, bem na frente do menino que eu gostava, me desequilibrei numa escada e tropecei, o negócio voou do meu pé e partiu ao meio. Tive que voltar descalça pra casa. Foi uma das cenas mais ridículas da minha vida e, dada a minha idade, possivelmente traumática. Aceitável ou não, esse episódio é responsável por pelo menos uma parcela do meu terror por tamancos.

Tentando ser um pouco menos emocional (agora que já fiz meu desabafo raivoso), eu reconheço: eu posso até querer os tais tamancos, mas eles não tem absolutamente nada a ver comigo. As cinturas altas, as ombreiras pontudas, todas as outras tendências que eram duvidosas à primeira vista me cativaram de primeira. Elas me remetem a lembranças boas e referências que eu amo (e posso até entrar nesse assunto depois). O clog não.

Eu nunca questionei meu amor pelos ombros marcados da Balmain. Eu achei divertido achar lindo uma coisa que por muito tempo foi sinônimo de brega. Agora é uma história completamente diferente. A polêmica nem precisava estar na boca de todo mundo. Ela já está dentro de mim.

O meio termo que consegui encontrar entre eu, eu mesma e Karl quem apresentou foi a Miuccia (Miuccia, eu te amo!!!). Na passarela da Miu Miu daquela mesma temporada eu não reconheci de cara que a referência era tamancos (só fui suspeitar depois que vi o desfile da Chanel e fiz a retrospectiva dos demais). Os sapatos eram setentinha sim, os saltos enormes e grossos, tinha meia pata, mas era tudo tão rebuscado, estampado, acetinado e colorido que se tratava de uma coisa completamente nova. E linda. Depois, quando a coleção foi pras lojas, a gente começou a ver os tamancos per se. E tão simpáticos!

Clogs Miu Miu Spring 2010

Esse segundo é tão literal, muito mais do que os da Chanel, uma coisa quase caricata de tão That 70’s Show. Se os tamancos da Chanel me deram raiva, mixed feelings, esses clogs da Miu Miu e fizeram, de cara, sorrir.

(E a Tavi amou também!)

Mesmo assim, pra vir pro meu pé era outra história. Ainda é um tamanco, ainda é solto, ele pode voar a qualquer momento (arrepio de medo só de pensar na possibilidade) e ainda faz clac clac clac. E essa estampa… bom, eu tenho 25 anos, faço parte do mundo corporativo… essas margaridas (lindas!!) não se encaixam na minha vida real. Ultimamente me forço a procurar coisas que caibam no meu dia a dia, que possam ir pra lá e pra cá comigo o dia inteiro (outra assunto que quero falar depois!) e definitivamente um tamanco florido não faz parte dessas coisas.

Clogs Miu Miu Spring 2010

Mas aí, a redenção. Esse par de sandálias parece que passou por toda a minha conversa. Ele tem a base de madeira, está mergulhado no perfume setenta, a gente sabe que se trata de um tamanco, mas é vida real. E ainda não é solto no pé. E é lindo! Miuccia, já falei que te amo hoje? Só você, poderosa com cara de mulher real, que trabalha até altas horas da noite, viaja, dá conta da família e ainda é gênia da moda poderia fazer isso por nós.

Por fim, eu sabia que em mais alguns meses as “inspirações” chegariam até aqui e com preço possível. Foi só esperar e tem pra todo canto. Na Santa Lolla, na Schutz, na Arezzo (é por isso que não tenho que andar quase nada pra achar meus sapatos). O meu é essa cópia (e não é copia?) Arezzo. Estoy enamorada.

Depois de tanta briga, talvez ainda me assuma fashion victim, mas estamos conversados. Karl, você venceu. Já tá todo mundo, até eu, achando os tamancos normais. Mais ou menos.

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Comments
  1. Ana |

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