Cinismo e imprevistos

Tenho me percebido ultimamente mais cínica, cética, pragmática. O cinismo aqui vem no sentido de cynic, no inglês, que difere bastante do dissimulado.

É o cínico que já perdeu o semblante de surpresa para um monte de coisas na vida.

Estou vivendo uma fase muito gostosa de coisas novas e pessoas novas e descobertas agradáveis – o que por acaso é maravilhoso porque eu já me perguntava (as vezes precocemente) se eu nunca mais ia ter essas surpresas na minha vida.

Mas não consigo relaxar.

Não consigo parar de pensar na virada péssima que vai acontecer, quem sabe, amanhã. Não consigo desistir da idéia que no segundo que eu deixar a coisa ir, sem freio, vai dar tudo errado. Ou que não seja no segundo. Eventualmente, alguma coisa dá errado.

Mais cedo ou mais tarde, dependendo do meu azar, todas minhas coisas feias, chatas e insuportáveis pulam e ficam maiores do que eu. Alguma hora minha cabeça resolve virar, eu resolvo querer diferente, e tudo acaba degringolando.

Sempre foi assim.

É difícil, acreditar, enfim. Já me apaixonei perdidamente, por uma pessoa maravilhosa, e tive a sorte de ser correspondida. Já tive momentos incríveis, histórias que perduraram, já acreditei com toda certeza que seria pra sempre. Ninguém fez nada de muito errado – ou por motivos maiores passou por cima de tudo que deu errado – mas mesmo assim, deu errado.

Aposto que já aconteceu com você também.

Então, como acreditar?

Ouvi com tristeza uma amiga minha que atualmente está apaixonada e num namoro feliz, que ela nunca nunca mais vai se apaixonar sem freio e sem deixar prevalecer a razão. Já sofreu outras vezes, e isso não vai permitir que ela, de certa forma, ame intensamente o novo namorado dela. Não é triste?

As experiências moldam as pessoas, as dores viram calos, a gente adota muletas – e vai ficando tudo menos natural, menos bonito, enfim. É bom aprender, claro, mas perde um pouco da mágica, não?

Tenho odiado esse ceticismo, vou confessar.

A única parte boa é que mesmo com os medos, as descrenças e com os freios – as coisas as vezes são maiores e acontecem sem pedir licença.

É gostoso isso. Talvez compense o resto.

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