Chardonnay, céu e mar.

Como é bom escrever bêbada. Todas as amarras, as dúzias de “se” chegam atrasadas, parágrafos depois. Já está documentado.

Escrever bêbado é escrever com as mãos e o coração. A cabeça fica sonolenta pensando em não sei o quê. E é ela que censura tudo, sabe. A minha cabeça é meio careta.

Eu não sei quem eu estou enganado, além de mim. O que eu quero da minha vida é isso. Escrever. Nossa, eu nunca tinha expressado isso de fato, colocado com todas as palavras: o que eu quero fazer da minha vida é escrever. O que eu sei fazer bem nessa vida é escrever. É a única coisa, talvez, que eu tenha alguma chance de fazer direito. Eu sou tão medíocre profissionalmente com tudo.

Eu não entendo porque eu tenho tanto medo. Estar entre quatro paredes me trava, me tira os verbos, me leva para outros afazeres. A última vez que escrevi direito ou estava em um barco aberto, ou de frente para um rio no Laos. Algo de estar apenas sob o céu me traz palavras, não sei bem o que.

Mais cedo falei pra ele que viajar é olhar pra fora. Pode ser relacionado a isso. A gente conhece tanta gente no dia a dia, conversa, agradece, e nem pensa na vida dessas pessoas. No olhar dessas pessoas. Estar aqui me faz querer entrar no olhar da senhorinha sentada na varanda da casa de dois cômodos.

Não precisa nem ser isso. Estar aqui me faz querer entender as ânsias e sonhos desse menino do meu lado.

É estranho que eu não tenha parado para refletir sobre esse corpo que me serve de travesseiro. Ele apenas me serve. Me leva pra passear, me distrai momentaneamente da dura realidade. Me traz sorriso. Alguns. Mais distrações que sorrisos. Veja só, isso já é muito pra mim nesses tempos.

O olhar pra fora me faz querer escrever. Os motivos dos outros me faz querer escrever. Os meus, eu sei bem. Os meus não interessam a ninguém. Não sei porque eu escrevo invariavelmente na primeira pessoa se eu acredito que a minha vida não é nada especial para merecer ser lida. É apenas mais uma vida. Medíocre.

Acho bem que é isso que me congela no dia a dia. Não tem jeito, eu só sei escrever a partir dos meus olhos. Sobre os outros, talvez, mas pelas minhas percepções. E aí quando coloco  o primeiro “eu” já me questiono: e daí que você percebeu isso? E daí que você acredita nisso? Não será do interesse de ninguém. Vamos para o Facebook mais um pouquinho, vamos?

Como é fácil quando o coração entra pelos dedos, sem escala na cabeça. Somem os julgamentos. Transborda a paixão.

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