Canto de solicitude e a magia dos estranhos

O moço do balcão ficou visivelmente nervoso. Andava de um lado para o outro, sacodindo as portas, dessas que vão e voltam como molas. Suava frio, pedia muitas desculpas e estava preocupado, comigo. Me entregou um endereço, escrito em letra trêmula quase ilegível, que ele repetiu gritando até que eu sumisse pelo portão de embarque: é o seu direito!

A senhora ouviu a nossa conversa. Se desculpou por palpitar, e deu uma nova sugestão de trajeto. Muitas recomendações, como tia preocupada. Na esquina, chamou Maria e pediu pra cuidar das meninas mineiras. A Maria quis, imediatamente, se responsabilizar pela nossa segurança e bem estar.

O taxista se preocupou em nos deixar no ponto mais seguro. Falou, “corre, vou te ajudar”. Deu dicas não solicitadas e aconselhou muito, mas muito cuidado. Desejou boa sorte, da janela, e boa noite – é bom também.

A amiga de anos virou as costas. Justificou por deficiências congenitais e outros traumas bem de infância. Quem é abandonado quando pequeno, justifica, pode abandonar quando bem entender. Se afogou em beijos vazios que a fez esquecer por poucos segundos do pai que nunca teve e do amor que se casará com outra.

 

O moço do balcão, a senhora na condução, a Maria da esquina e o taxista, esses sim nunca estarão sozinhos. Não tinham a menor obrigação em estender a mão, mas nunca conseguiriam virar o rosto e se ausentar.

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