Diário asiático, dia 8: Vang Vieng, Laos

Acordamos cedo e eu gastei o dobro do tempo para me arrumar e arrumar as minhas coisas com o dedo do jeito que estava. Durante a noite ele doeu pra caramba e continuou bem inchado. Para piorar, dois outros dedos da mão esquerda também estava inchados e doloridos, o que me deixava com 3 dedos funcionais em cada mão. Roomate fofa foi correndo no café do dia anterior e buscou croissant e moccha pra mim enquanto eu me ajeitava e às 8 da manhã já estávamos na estrada. GG tinha falado e repetido que a estrada era ruim e que a viagem era bem longa mas muita gente passou mal, deu piti, reclamou, aquela coisa. Eu escrevi metade do tempo e dormi metade do tempo, peguei duas poltronas só pra mim, nem foi tão ruim assim. Na verdade, depois da véspera, eu estava razoavelmente aliviada que estávamos deixando as três biscates para trás.

Na parada para almoço, num lugar bem lindo tipo o Topo do Mundo, surpresa: lá estavam elas, fazendo uma pausa do mesmo trajeto. Ai meu deus, que azar. GG não parecia assim tão entusiasmado quanto na noite anterior (lógico, estava trabalhando) e elas ficaram na dela. Serviram um almoço bem gostoso, eu comprei uns M&M’s pro resto do dia (deixando secretamente um pacote na poltrona do GG, que é viciado) e simbora. A essa hora, todo mundo só queria saber de chegar.

Paramos em Vang Vieng, nosso destino do dia, no fim da tarde. Algumas meninas que passaram mal durante a viagem pediram para ir ao hospital local quando chegássemos e achei boa ideia me juntar a elas para dar uma checada no meu dedo. De manhã cedo, quando contei pro meu pai do que tinha acontecido, ele me perguntou duas coisas: Tirou raio X? Imobilizou? Sim, estava imobilizado mas nada de raio x. Achei prudente garantir essa parte.

Acabou que quando chegamos, as tais meninas desistiram do hospital. Acho, na verdade, que é tudo piti de gente mal (ou bem, depende do ponto de vista) acostumada com estrada. Fomos só eu e guia local andando, uns 3 minutinhos pra chegar.

Sobre o guia local do Laos, que era um querido: de todos os agregados que tivemos, ele era o mais bacana e nos mostrou um lado muito mais pessoal do Laos. Talvez por isso mesmo, todo mundo curtiu tanto o tempo no país. Toui é novinho, tem uns 23 anos, casado, sorridente, o típico asiático na boa. Foi monge na adolescência – é o jeito mais fácil de ter uma educação bacana – e saiu para fazer faculdade na capital, Vientiane, antes de virar guia. Por isso, ele sabe TUDO de budismo. O mais curioso é que ele e a esposa têm um combinado de que, depois que os filhos crescerem e saírem de casa, os dois vão se divorciar e voltar a ser monges. Isso mesmo. Não é curioso? A parte bacana disso tudo é que você pode ser monge por um tempo determinado, sair, voltar, ninguém te julga. O que tá me encantando no budismo é isso: o respeito à individualidade, aos questionamentos, à jornada e escolha de cada um. Toui tinha uma frase clássica que repetia sempre: No problem! This is Laos. Depois fui descobrir que é realmente uma expressão constantemente repetida no Laos, tipo Hakuna Matata, sabe? Por causa dele também acabei aprendendo uma meia dúzia de palavras a mais que em qualquer outro país.

A ida ao hospital de Vang Vieng, que era uma das menores cidades a que fomos, foi uma experiência interessante. Era um lugar como um posto de saúde (um pouco maior talvez) mas bem arrumadinho e relativamente vazio. Todo mundo foi bem bacana comigo e eu fiquei rindo do programa tailandês (bem estilo aquele talk show de Lost in Translation) que passava na tv. Fui atendida rápido, fizeram meu raio x e falaram que tá tudo bem. Até tirei a tala. Pronto, tinha como souvenir um raio x feito no Laos! (Mas o dedo ainda doía pra caramba.)

O hotel ficava de frente para o rio e umas montanhas incríveis de lindas. Tinha um deck bacana do lado de fora e wifi no hotel todo (sempre bom!) mas ainda era bem simples. Essa noite iríamos jantar e ir para uma baladinha em seguida e eu estava em pânico das 3 biscatas aparecerem, realmente determinada a sentar perto de GG no jantar, com vergonha de tudo – mais ou menos a mesma coisa de todos os outros dias, na verdade. Esses dias eu estava seguindo uma estratégia (furadíssima, diga-se de passagem) de na hora que chegava no restaurante eu dava uma sumidinha no banheiro, para as pessoas sentarem e ficava no ultimo lugar que sobrava – que era normalmente onde GG tb sentava. Pois bem, resolvi fazer isso só que não deu certo pq umas 5 pessoas atrasaram para ir pro restaurante e ele acabou sentando com elas. Damn! Nunca dá certo, gente!

O restaurante era bem divertido, meio ao ar livre, com umas mesas com tatame e clipes passando em tvs. Bem animado. Eu tava bem feliz que tinha comida ocidental no cardápio e era minha chance de comer um hamburger, yay! Ganhamos bebidas grátis de um garçom peça raríssima, começamos a dançar, foi uma pré baladinha de respeito! De lá, fomos para outro bar chamado Fat Monkey, lotado.

Um parênteses para Vang Vieng: até bem pouco tempo atrás a cidade era uma Amsterdam da Ásia e muitos europeus iam pra lá pelas drogas. A maioria dos bares ainda tem um cardápio “especial”e tipo uma ala de maconheiros, cheia de tatames com almofadas e tvs passando Family Guy. Quando chegamos no Fat Monkey, claramente mais da metade da galera era bem dessa vibe (e eu obviamente não sou). Mais cedo, antes do jantar, tinha conversado com a Cons no FB e ela deu a maior força para eu ser mais agressive pra cima de GG e investir na ajuda da vodka. Com as bebidas grátis que ganhei, tava mais fácil. GG passou grande parte do tempo no segundo bar resolvendo uma briga retardada entre a americana tapada e a australiana louca (que eu menciono no primeiro jantar) e na hora que ele falava só com a americana eu resolvi bicar. Cara, GG é um sonho. O jeito que ele lidava com aquela situação patética era de babar. Ele começou a falar algumas coisas da experiência dele, de como ele teve problemas com a família uma época, como ele ainda é julgado pela escolha que fez – enquanto o irmão é médico – e eu fiquei ainda com mais vontade de conhecer esse cara e saber o que ele viveu. É um saco pq eu pego uma coisinha aqui e ali mas não consigo passar disso. Esse dia, na verdade, participei dessa conversa um pouco e fiquei BEM (desproporcionalmente) feliz. Na verdade, esse dia eu estava super na paz, feliz comigo, feliz com GG, me achando bem resolvida e acabei mediando a briga das meninas junto com GG, cuidei um pouco da australiana louca (tentei, na verdade) e voltei com GG e elas pro hotel.

Eu não estava no quarto há nem 15 minutos quando vi da minha janela GG tocando violão no deck, uma foguerinha acesa e algumas pessoas perto. Desci correndo, sentei lá, mas logo as 3 biscatas chegaram DAQUELE JEITO. O engraçado, na verdade, é que GG estava fugindo delas. O negócio é que ele é ultra sutil e educado (tipo com a australiana louca, que ninguém suporta e ele super passa por cima da antipatia pessoal para cuidar dela) e eu fico com aquele receio de estar acontecendo basicamente a mesma coisa comigo. É assim, essa espiral: auto confiança, papo, self consciousness, sumiço.

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