Diário asiático, dia 5: atravessando a fronteira entre Tailândia e Laos

Na verdade hoje já é dia nove e nesse momento eu estou sentada na minha cama, debaixo do edredom, de frente para uma vista deslumbrante. É hora de relaxar e colocar as histórias em dia.

Acordamos cedo em Chiang Rai para embarcarmos em uma jornada de dois dias atravessando a fronteira rumo ao Laos. A aventura foi intensa: busão pela manhã, uma caminhadinha básica, parada num quiosque de imigração (ainda tailandês) no meio do nada (e debaixo de sol!!), canoa (!!!) com bagagem e tudo para atravessar o rio, outro quiosque de imigração e câmbio no meio do nada (agora no laos), outra caminhada com malas morro acima, tuk tuk, mais um rali com bagagem e, finalmente, barco.

GG tinha falado que o barco era um cruzeiro no Rio Mekong (12o. maior do mundo, voltarei nisso) e eu não sabia bem o que esperar. Na verdade, eu descreveria como uma escuna. Tinha bastante espaço mas era de madeira, simples. No deck eles colocaram umas espreguiçadeiras super confortáveis (onde fiquei a maior parte do tempo) e o resto eram mesinhas de 4 pessoas, com bancos. Logo que o barco zarpou, o almoço foi servido. Tenho um certo pânico de comida em barco porque uma das vezes que fui pra Búzios serviram melancia pra todo mundo e foi um festival de respingo no chão, o tipo de coisa que tenho pavor. Quando passeamos pelo rio São Francisco foi ainda pior. Então fiquei surpresa porque o almoço era uma delícia!

Esse dias foram o pico do meu deslocamento (também foi quando eu comecei a escrever) e isso estava me incomodando. GG parecia estar fugindo de mim, não que eu estivesse o perseguindo (nem perto!) mas toda hora que eu percebia ele tava no lado completamente oposto do barco. Esse dia eu comecei a prestar bastante atenção em GG e no comportamento das pessoas ao seu redor (principalmente por causa da véspera) e o negócio só piorava. Ele ficou tocando violão na viagem, botou uma playlist bacana, aquela coisa clichê pela qual a gente baba. Para me proteger disso e do meu deslocamento, me instalei no deck com meus livros e por lá fiquei. A roomate sentou do meu lado e ficou desenhando as pessoas – ela desenha bem! – e na hora que ela resolveu desenhar GG ela não conseguia. Peguei uma folha e pá, expliquei pra ela as proporções e tal. Eu, que não sei desenhar nem boneco de palitinho. Mas ele eu já sabia o formato do rosto, o ângulo do nariz, o tamanho da boca. Eu sei, eu sei, não é legal. Estou me controlando. Além de ser vergonhoso, não faz bem pra mim.

Sobre fazer ou não fazer bem pra mim: quero deixar claro que o importante dessa história de GG não é se vou ficar com ele, se não vou, se alguém vai, nada disso. A importância do GG ter aparecido – e a utilidade imediata disso – é que eu simplesmente parei de me importar com o ex. Penso nele? Sim, às vezes. Mas logo eu deixo de lado, vou viver a vida. A grande diferença que já estou vendo dessa viagem para a da Austrália e NZ é que na outra era só eu e Cris, não tinha essa coisa tão forte de conhecer gente (só na noite, coisa rápida) e isso não ocupava minha cabeça o suficiente. A Cris já me conhecia, já éramos amigas, não tem toda aquela intensidade que está tendo de ser jogada num grupo de estranhos. Além de me ocupar, abre meus horizontes. Me dá um alivio ver que tem gente tipo GG aí pelo mundo, que tem uma galera fazendo coisas diferentes e apaixonantes, que já viveu tanta coisa que você nem imaginava e o quanto tudo é maior. No final, isso fica. Fique ele ou não. Viajar não é só paisagem nova. É gente nova. Fazia tempo, viu.

E isso não é culpa só de GG. É até feio falar, mas eu tive que atravessar o mundo para olhar de verdade pra fora. Como disse antes, aqui é bem parecido com o Brasil em vários aspectos, mas só aqui eu realmente abri o olho para a vida da população local, o quão menos eles têm e precisam para ser feliz e como um estilo de vida diferente, mais simples, não significa uma vida menor. Vejo GG vivendo com uma mala, longe de casa, longe da família, um grupo de amigos novos por mês e o quanto ele parece, bom, maior. Isso durante a viagem de barco foi ficando bem claro, pela forma que ele descrevia a vida na Ásia e as pessoas que conheceu, o quanto ele sabia (e como falava) sobre os conflitos locais, as mazelas, isso tudo. Como dá atenção para todos, como sabe lidar com todo mundo. Esse menino, gente, tem uma coisa. Não é só olho azul não. É especial, dá pra ver.

(Fico chamando GG de guia mas na verdade não é bem isso, ele tem outra denominação de cargo que se eu descrever vai me deixar muito mais vulnerável ao google. GG é formado em relações públicas e por motivos ainda desconhecidos resolveu jogar tudo pro alto e fazer o que faz hoje. Respect.)

Outra pessoa que tem me impressionado e me ensinado muito é a própria roomate que é uma graça e mais velha, super inteligente, cheia de histórias e ainda por cima já morou em um monte de lugar bacana. Tive sorte nessa parte viu, a minha chance de cair com alguém tapado era grande! Na verdade, nem tanto, porque claramente as pessoas que estão sozinhas são um pouco mais interessantes – o mínimo para embarcar numa viagem dessas.

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