Diário asiático, dia 4: Chiang Rai, Tailândia

Nessa noite eu tive um pesadelo absurdo – na verdade dois – daqueles cheio de enredo, super compridos, onde basicamente alguém me perseguia e perseguia cada familiar meu, ameaçando-nos e etc. Acordei em pânico, acho que o pesadelo foi porque o ar condicionado estava no talo e eu dormi congelando, sem perceber. Logo cedo tomamos o café magia do hotel de Chiang Mai e colocamos as coisas no ônibus para ir para Chiang Rai. No caminho, ainda pela manhã, paramos num outro tempo, lindo, no topo de uma montanha – para chegarmos tínhamos que subir uma escada infinita. No caminho, menininhas fofas de roupas típicas, pedindo dinheiro pelas fotos que tirávamos (photo moneyyy) e os primeiros monges da viagem. Entramos no templo e de cara eu fiquei emocionada – de novo. É uma coisa linda, inexplicável! Como o templo anterior, também tinha bastante local e eu estava adorando observar o jeito que eles rezavam, faziam as oferendas, etc. Lá dentro recebemos a bênção de um monge (desse bem velhinhos, bem tipo a imagem que a gente tem do Ghandi) e o assistente dele colocou uma fitinha no nosso braço – que eu estava achando que seria como a do senhor do bonfim mas acabou sendo um barbante tipo o da cabala, mas branco. O monge não podia amarrar a fitinha nas meninas, porque ele não pode encostar em mulheres – eu acho que já tinha ouvido falar disso. Nesse meio tempo comecei a perceber que os locais ofereciam flores de lotus – lindas! – e acendiam velas e eu e a colega de quarto resolvemos fazer o mesmo – eu esqueci de contar mas logo que acordamos ela veio me falar que tinha tido um pesadelo bizarro, e eu nem tinha comentado do meu! Segundo o guia local – não o gg – um dos motivos que os locais oferecem as flores é pra afastar maus pensamentos e pesadelos, olha que coisa oportuna! Foi bem bonito o ritual, mesmo que eu não tivesse nem ideia do que estava fazendo, copiei os locais e estava tudo certo. No caminho de volta, as meninas da turma pararam para tirar fotos com as menininhas e uma delas me puxou, me abraçou, foi uma fofura só. Total alegria até então.

No ônibus, a caminho do almoço, era hora das apresentações oficiais. Minha tara pelo GG crescia exponencialmente a cada minuto – e claramente o mesmo acontecia com a grande maioria das meninas, terror! Era só ele fazer um air guitar que eu pirava – acabei percebendo que ele carrega um violão pra cima e pra baixo, mais um ponto (quantos ele tem até agora? Dois zilhões?). Eu entrei um pouco em pânico por ter que ir lá na frente me apresentar, estou bem intimidada pelo meu inglês – que eu sempre achei tão incrível, imagina – que nunca será igual o de todo mundo. Sei lá, me sinto beeem outsider e até tenho tentado usar isso em meu favor mas ainda não fui bem sucedida. A verdade é que não tive tanta vontade assim de passar da conversa básica com tudo mundo. Fiquei mais próximas de outras duas americanas fofas, bastante ligada à colega de quarto e a outra pessoa que eu estou louca pra conhecer melhor, bem, eu não consigo chegar perto dele – o que só vai piorar pq a atenção está ficando ridiculamente disputada. Respirei fundo, me apresentei e pronto. Eram 6 itens num questionário básico: Nome, apelido, idade, de onde vem, o que faz e qual o hollywood crush. A retardada aqui mandou um natalie Portman seguido de “tenho uma coisa por rockstar e guitarristas, então Brandon Flowers, do Killers, e o cara do Kings of Leon. Olhei de canto de olho o GG, que levantou a cabeça quando falei dos músicos, sorriu quando eu mencionei Killers e ainda completou: Caleb Folowill. Bom, temos aqui um assunto no ar para usar no futuro, minha isca 1 está jogada, com muita sutileza. Tenho que manter o ritmo.

Tenho percebido que muta gente faz um esforço sobrehumano pra ser super engraçado o tempo todo, o que me é muito cansativo, sem contar a tonelada de piadas locais que os australianos soltam e eu perco a paciência de ficar tentando acompanhar o tempo todo. É forçado, sabe?? E assim, muito como em Liège, os dias vão passando e as pessoas vão se aproximando mais e mais e eu vou ficando naquele estágio de simpatia inicial. Tô meio com medo de acabar sobrando. A grande verdade é que não estou assim tão interessada em muitas dessas pessoas, principalmente a galera que tá na faculdade e só quer saber de farra, mas sei que deveria fazer um esforço maior. Tenho deixado sempre pro dia seguinte, o que é péssimo, eu sei.

Um dos motivos pelo qual tenho evitado falar com GG, além da minha patetice já descrita, é que durante o reveillon eu fiquei dando umas olhadas descaradas, como é bem do meu estilo. Agora, lógico, tô com mais vergonha ainda. Pego uma timidez recíproca do lado de lá – que pode muito bem ser porque ele me acha creepy depois do reveillon. Não sei. Ainda não tinha pegado nenhum clima entre ele e mais ninguém – mas eu volto a isso mais tarde. Acho que vou falar bastante desse cara e se está irritante pra vocês, imagina pra mim ter que ficar obcecando desse jeito. Não tô me aguentando. Aliás, isso me lembra muito da primeira vez que eu fui pra Europa, com meus avós, e no grupo tinha um casal de irmãos do rio: a menina tinha 17 e o menino 19. Eu tinha 13 anos, quase 14 e entre num surto platônico pelo menino, uma coisa retardada que durou o mês inteiro da viagem. Obviamente nada aconteceu, mas aquilo me alimentou de uma forma doente e eu não quero de jeito nenhum repetir uma paixonite de uma menina de 13 anos. Era só o que me faltava. Mas tá difícil, viu.

Paramos para almoçar num lugar super simples, onde todo o lucro era revertido para um projeto local. A comida era simples e até bem gostosa, apesar de pouca. Como isso pra mim já era maravilhoso o suficiente, devorei tudo. De volta no ônibus, depois de mais ou menos meia hora, pânico: uma dor de barriga fenomenal. Gente, e agora? Estávamos no ônibus no meio do mato, eu não tinha nem ideia quanto tempo faltava pra próxima parada e o banheiro do busão estava interditado. Socorro. Finalmente o GG falou que faltavam 15 minutos pra gente passar por um templo que segundo ele era fenomenal – beleza, lá tinha banheiro e eu podia aguentar firme. Or at least I hoped so.

Na hora que o busão ameaçou estacionar perto do templo eu já levantei desesperada o GG lá da frente do seu lugar sacou que eu PRECISAVA descer – parabéns Lorena, investindo na imagem patética. Saí correndo do ônibus em direção ao banheiro mais próximo que, bacana, tinha fila!! Fiz uma cara de sofrimento para a mulherzinha que fica na porta e ela me deixou entrar no banheiro masculino. Surpresa! Mesmo nas cabines, a privada era tipo aqueles buracos no chão. Maravilha, só que não. O banheiro era nojento, o chão estava molhado, não tinha onde pendurar a mochila, nada. Pelo menos ela me serviu de apoio para agachar e assim foi meu primeiro piriri asiático, puro glamour. A mulherzinha ficou rindo alto do lado de fora e jogou um pacotinho de lenço por cima da porta – que situação, mano. Recompus minha dignidade na medida do possível, mas era certeza que eu ainda não estava bem. E era uma parada rápida, eu só teria mais 3 minutos perto de um banheiro antes de mais 2 horas de viagem. O sonho de qualquer um.

Trabalhei na minha cara de pau e lá fui eu pedir pro GG (depois de tentar com alguns coleguinhas) um remedinho pra me ajudar nessa empreitada. Momento de vergonha numero 255. Ele até foi bem discreto, me deu o negócio, falou que era mágica, e me deixou na minha vontade de morrer. Não precisa nem falar que eu não cheguei nem perto do templo, que era incrível mesmo, todo branco e prata, uma coisa. Tive que voltar pro ônibus sem nem uma foto e apesar de toda a tensão das 2 horas seguintes, tudo correu mais ou menos bem. Estávamos em Chiang Rai, que claramente era beeeem menor que Chiang Mai.

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