Diário asiático, dia 1: Bangkok, Tailândia

Chegando no aeroporto de Bangkok o choque foi imediato. De cara, descendo do avião, percebi que o cara que eu menciono no prólogo era (pasmem!) brasileiro e viajava com os pais e a irmã. Logo que desembarcamos eles pareciam saber pra onde ir e eu segui por alguns minutos, mas logo vi um guichê de visto imediato e lembrei que o STB tinha me falado algo sobre. Resolvi ficar, trocar dinheiro, e entrar na fila do tal visto.

Existiam duas filas diferentes: uma chamada fast track e outra normal. Como eu não sou idosa nem gestante, nem nada que aparentemente me dê o privilégio de uma fila mais curta, entrei na normal, onde só tinha indianos, homens. Claramente alguns deles começaram a falar de mim, completa gringa que eu era, e um até tentou puxar papo, o que era meio creepy. A fila não andava – enquanto na outra as pessoas ficava só uns 3 minutos e algumas delas até eram dispensadas. Tentei me comunicar com a pessoa encarregada de dar informações, mas o inglês era impossível. Os indianos cheiravam curry e riam. De mim. “O que essa menina ruiva está fazendo aqui sozinha?”

Depois de uns 40 minutos plantada, carregando a mochila pesada, consegui descobrir que os brasileiros não precisam de visto. Eu estava lá de boba. Beleza. Corri na direção que o brasileiro gatinho tinha ido quase 1 hora antes e entrei numa outra fila apenas de imigração. De lá, me mandaram para um  “health ckeck”, onde olharam meu cartão de vacinação. Tive que pegar a fila anterior de novo e daí eu estava finalmente livre – ou quase. A minha mala já me esperava fora da esteira, a única que sobrou do meu vôo e dali acabei encontrando a tal família brasileira de novo. Corri para a fila do taxi (que era rosa barbie, uma coisa linda!) e mostrei o endereço do hotel para o motorista, com o auxílio de uma mímica básica. Simbora, aí sim a brincadeira começou.

No caminho já deu pra ter uma ideia de como bangkok ia ser: de cara, achei os outdoors e publicidades super curiosos, sempre usando modelos asiáticos jovens, sempre em casal, até pra vender iogurte ou carros. Em termos de estrada, vegetação e arquitetura tudo parecia bastante com o Brasil. Isso acabou sendo a primeira coisa que me surpreendeu: a tailândia é muito mais familiar do que eu imaginei.

Chegando no hotel, já fui conhecendo a minha roomate, uma americana simpática e falante de São Francisco. Ela já tinha conhecido outra menina que estaria no grupo: uma australiana de 22 anos, bem gordinha e super engraçada. O meu plano chegando no hotel era comer e dormir – a reunião para conhecer o grupo só aconteceria em 5 horas – mas acabei batendo papo com a australiana o tempo todo, o que foi um pouco esquisito pq eu estava querendo ficar quieta, mas não ia explusar a menina. Depois banho e reunião. Nem consegui comer, americana já esperava lá embaixo.

De cara, a primera coisa que notei foi o guia que seria responsável pelo nosso grupo: bem meu tipo, isso é o mínimo que eu posso dizer. Na verdade na hora eu nem pude prestar muita atenção, fiquei desconcertada daquele jeito que bem fico quando alguém totalmente meu tipo cruza meu caminho, mas eu estava curiosa para ver todo mundo que também estava chegando: um bando de meninas, todas anglofônicas. Do grupo de 30 pessoas, apenas 6 era homens: o primeiro que eu vi era morbidamente obeso, o segundo tinha uma cara super esquisita, o terceiro era asiático. Meu deus, onde vai tá o love da minha viagem? O guia já começou perguntando de que país cada um era e eu finalmente percebi que eu sou a ÚNICA que não vem de um país anglofonico. Não a única brasileira, mas também a única “estrangeira”. Juro que deu um medinho: claro que que viajo o tempo todo e tô acostumada a lidar com todo tipo de gente, mas eu sempre, sempre tenho um outsider junto comigo. Isso no mínimo vai ser interessante.

Depois de todas as recomendações e instruções iniciais (que, diga-se de passagem, foram absurdamente detalhadas e já previam a frescura dessa galera) fomos jantar num restaurante local. O pânico alimentar se instalou: fui na onda das meninas da minha mesa e pedi o famosos Pad Thai, um macarrão que quando chegou parecia super estranho. Na verdade, foi ainda pior: eu fui a primeira a ser servida e eu tinha certeza que erraram meu prato. Situação bizarra. Eu não conhecia ninguém direito, e tive que dar uma de retardada e perguntar pros coleguinhas: é isso mesmo que a gente pediu? Geral falou que sim, claro e eu tentei mandar ver – o que foi basicamente uma garfada tímida. Logo depois o prato de uma das meninas chegou e, tadaaaaa, era diferente, lógico. Climão. Fiquei calada fingindo comer o meu negócio (seja lá o que fosse) até que sobrou um prato na mão da garçonete. Querida, esse é o meu, você errou. Prato devidamente trocado, garfada tímida numero dois dada e foi isso. Complicada essa comida, pelo menos pra mim. A galera à minha volta se esbaldava.

Na minha mesa, além da americana gente boa, sentaram um par de australianas viajando juntas (novinhas, amigas desde a escola), uma australiana mais nova ainda e absolutamente louca, que entrou numa verborragia que não acabou até hoje, e mais outro par de amigas australianas, essas duas da faculdade. Todo mundo é bastante novo, com excessão da colega de quarto que tem trinta, mais uns poucos na mesma faixa e o guia gato que tem a minha idade. Ueba.

Na sequência, a primeira grande surpresa da programação: o guia gato sugeriu de cara o famoso ping pong show, o tal show de pompoarismo que é famoso por aqui. Já vi um monte de gente falando que assistiu, lógico, mas eu nem tinha realmente pensado em ir (ou não) a um. Eu nunca nem fui em um strip club, nunca passou pela minha cabeça esse tipo de programa, isso ia ser curioso. Pegamos um tuktuk, a galera toda animadíssima, e atravessamos bangkok até chegar num gueto absurdo, uma coisa louca. No carro, eu, a americana, as duas australianas amigas da faculdade e um inglês razoavelmente interessante, mas com os dentes mais zoados do mundo.

Aí deu pra ter uma noção maior da “frescurice” da galera, e do tanto que eu sou até mais local que todo mundo. No caminho eles estranhavam e comentavam sobre absolutamente TUDO. Pra começar, se o cara do tuktuk falasse algo em inglês remotamente errado, era riso e zoação pra todo lado. Gente! Vamos observar.

Chegamos no muquifo onde o show ia solar (todo muito barato, tipo 10 conto pra entrar, com tuktuk incluido) e na porta já tinha um banner com a foto de umas 10 barangas, a maioria asiática e uma loira que era a cara (e o estilo) da namorada do ex (merda, boa lembrança). O lugar era minúsculo, bem simples, e as mulheres já andavam pra cima e pra baixo de sutiã e uma mini sainha, mini mesmo tipo cinto, sem calcinha. Elas eram todas meio nervosas, agressivas e impuseram que a gente sentasse na primeira fila, terror. No palco, uns balões, um chuveiro (???) umas bananas, essas coisas. Trashy total. Não consigo imaginar outra situação que eu estaria naquele lugar se não com um grupo gigante de desconhecidos. Na verdade, foi até engraçado, porque todo mundo topou de cara ir pra esse lugar (o que me impressionou). Só no jantar que eu fui perceber que as meninas estavam na minha onda: sabiam que não iam curtir, mas tinham que ir pelo menos uma vez. What the hell, já foi. Peguei uma cerveja para entrar no clima (na medida do possível), e comecei a reparar que as mulheres eram extremamente velhas, um bagaço. É impressionante a auto estima dessa galera, uma coisa que admiro profundamente. Duas delas tinham o pé tamanho 44 e cara de homem – isso é uma coisa de stripper, gente?? Ticolé desse povo masculinizado, e porque os homens curtem essas barangas? Anyways. No canto, um senhor ocidental, muito creepy, com uma das meninas do show, tipo cara de tarado total. Pânico. Sabe quando vc pensa: esse cara deve ter mulher e filho em casa. Então.

O show começou e é engraçado eu falar isso mas já no início fiquei decepcionada. Primeiro que não é uma habilidade assim tão impressionante, segundo porque era super mal organizado. Em um ponto parecia que a mulher que se apresentava ia chorar, completamente deprimente, as coisas eram feitas mecanicamente, sem nem disfarçar. As pessoas da platéia desviavam das bolas como se fossem material radioativo, coitadas, deve ser duro ver que todo mundo tem um nojo absurdo de você. Lá pelas tantas, depois delas ficarem bem irritadas com o quanto que nós ríamos (a ponto de uma ameaçar com um sinal tipo de degola) e quando percebemos que ia rolar literalmente um sexo no palco, saímos correndo. A galera foi até tomar uma cerveja, mas pra mim não dava mais. Comendo mal, virada da viagem e depois daquela bizarrice, era hora de cama.

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