Diário asiático, dia 11: do Laos para Phnom Penh, Camboja

Saí um pouco das descrições práticas do dia anterior, então vou tentar recapitular. A viagem começou a tomar uma cara de despedida quando chegamos na última cidade do Laos, Vientiene, ontem. Para mim, ainda não tô nem na metade do roteiro, mas 15 pessoas do grupo só vão até o Camboja. Isso inclui: roomate fofa, as duas californianas fofas, mais da metade dos meninos, menina grande. Nesse meio tempo me apeguei à algumas pessoas, principalmente essas enumeradas, e as que não to curtindo são justamente as que vão pra segunda parte da viagem. Menos GG, claro. Tô felizona que eu continuo com ele.

Na noite de Vientiane, depois do Cope Center, demos umas voltas pelas feiras da cidade (que só tinha tralha) e fomos jantar. Vientiane é a parte mais “desenvolvida” do Laos, uma cidade bem fofa, clima legal. Do jantar, iríamos nos encontrar num bar ao lado do hotel mas eu e roomate – pasmem! – capotamos. Pois é. I’m not even sorry. Ok, talvez um pouquinho por causa do GG, né.

Pegamos o voô para Phnom Penh na hora do almoço, fizemos toda a papelada de entrada no Camboja e do aeroporto fomos direto pro busão que nos levaria pros campos de genocídio do Khmer Rouge.

Pausa: GG tinha me emprestado na véspera um livro sobre esse assunto (sobre o qual eu nem tinha conhecimento, que burra!) e gente, é pesado (novamente!). Tetê já me mandou botar link nesses trem mas vamos pra explicação básica: na década de 70 um partido comunista que estava se formando secretamente depôs a monarquia que existia há séculos. A idéia do Khmer Rouge era transformar o camboja numa nação equalitária e 100% agrícola, focada na produção de arroz. Para isso, no dia do golpe eles anunciaram que os estados unidos iriam bombardear Phnom Penh e mandaram todo mundo sair da cidade para o campo. TODO MUNDO. Quem não podia se locomover ficava pelo caminho. Desse abril de 1975 em diante, o Khmer Rouge controlava o país. Fecharam as escolas, que pra eles eram inúteis. Recrutaram as maiores mentes do país (médicos, engenheiros, professores) com o pretexto de que eles se envolveriam e ajudariam a montar um plano de desenvolvimento e (choque!) mataram todo mundo. Para eles, os intelectuais eram a maior ameaça e podiam tomar o poder. Daí começou o horror básico de qualquer ditadura: perseguição, tortura, genocídio, censura, etc. Isso foi outro dia, na década de 70 pra 80 e durou 9 anos. O Camboja até hoje está se recuperando desse período e, segundo GG, todo mundo perdeu um familiar no regime. Foi isso que o livro me ensinou e que tornou pano de fundo para uma das coisas mais chocantes que já vi na vida. COPE center ficou meio no chinelo, viu.

Eu já fui em campos de concentração na Alemanha e, pra falar a verdade, não fiquei muito abalada. É horrível, comovente, mas eu olhei tudo e saí normal para o próximo destino. Nada que tenha me marcado muito. No caso dos killing fields foi diferente: chegamos no lugar num calor senegalês e o guia local, que tinha um inglês de dar dó, começou a contar a história da família dele e como muitos foram parar ali. É muito mais pessoal, recente e dá pra ver a dor no rosto de todos os locais que estão trabalhando: o guardinha, a moça da lanchonete, o senhor vendendo flores. Cruel ter que estar todo dia num lugar desses. Bem no centro do “jardim” tem uma torre, com janelas de vidro, cheia, CHEIA, de crânios humanos. Pá. A retardada já começou a chorar aí. A dimensão é assustadora. À medida que passávamos por cada pedaço do campo, as descrições ficavam mais fortes, mais desoladoras. É estranha a quantidade de detalhe que o guia local dava sobre as execuções, logo depois de falar dos familiares que sumiram ali. Quase todo mundo chorava. Não tinha jeito. É um lugar muito triste, o ar é pesado, tudo tem cheiro de morte. A única coisa bonita que vi ali foi a simples (e colorida) homenagem que os visitantes fazem às vítimas: centenas de pulseirinhas penduradas na árvore que marca o ponto onde as crianças eram executadas. Milhares, talvez. Um a um, cada um colocou a sua. Parecia enterro. Voltamos pro ônibus calados e ficamos assim por uma hora.

Cambo_PP_killing

De lá, fomos para mais uma “atração” que tinha a ver também com o regime Khmer Rouge: a prisão S-21, onde aconteciam os interrogatórios e torturas. Dia pesado, eu falei. A prisão era anteriormente uma escola, que foi fechada como todas as outras do Camboja (segundo os líderes do Khmer Rouge, era inútil). Arquitetura simples, quadradona. Dentro, fotos das vítimas, dos integrantes do partido, nada especialmente interessante. O que mais me pegou foi o jeito que a luz batia nas celas escuras, principalmente naquela onde acharam os últimos prisioneiros (recém assassinados) quando o Khmer Rouge caiu.

Detalhes da prisão S-21

Fomos para o hotel fazer check in já no fim da tarde e nos arrumar para jantar. A noite incluía várias paradas: restaurante, bar, balada. Botei meu vestido branco magia (um pouco too much para a ocasião, mas qualquer esforço era bem vindo pra dar um up na confiança naquele momento) e fomos para um restaurante incrível, chamado Friends. Quem estiver em Phnom Penh, por favor, não deixe de ir nesse lugar. Vocês já ouviram falar daquele projeto do Jamie Oliver de fazer um restaurante e treinar adolescentes carentes para serem chefs? Então, é a mesma coisa. E a comida é absolutamente incrível. Sentei na cabeceira da mesa e GG láaaaa do lado oposto, um de cara pro outro, foi meio tenso. Pedimos vinho e eu tive que fazer mágica para não espirrar no vestido branco. O vinho era maravilhoso, por sinal. Sabe quando tudo conspira pro jantar ser memorável? Então.

Detalhes da prisão S-21

Detalhes da prisão S-21

De lá seguimos para um bar onde os estrangeiros (da ONU e afins) que vieram ao Camboja no início da década de 1990 para ajudar a reimplantar um regime democrático se encontravam na época. As bebidas eram ridiculamente baratas e todo mundo estava bem alegrinho (apesar do bar não ser isso tudo). Na verdade, era o aniversário de 21 anos de uma das australianas e ela própria estava bem desanimada. Oh well. Depois de uns dois drinks eu e roomate fofa decidimos mudar de lugar e falar com GG – ela tem mais facilidade que eu e isso me ajuda bastante. Perguntei pro GG da viagem dele pra África, de trabalho voluntário, sobre a possibilidade de eu esticar minha estada e ele foi bem receptivo. Bem bacana. Nem precisa falar que fiquei felizona né? Estava super focada na missão aproximação. Esticamos a noite pra uma baladinha bacana chamada Riverside e todo mundo estava já mais pra lá que pra cá. Nunca foi assim, mas o álcool me ajuda ultimamente. Eu fico menos tímida, meu humor melhora, eu fico amigona e eu tenho energia (normalmente à noite eu tô acabada). E tem uma coisa que eu faço diferente da maioria: eu sei a hora de parar. Como tem gente dando vexame, viu.

Dancei um pouco e sentei na varanda do bar com GG. Estava um calor louco e GG não dança (falarei mais disso), além de fumar. Não lembro muito bem o que conversei com ele, mas não consigo sair do assunto básico viagem/livros/música. Não sai do superficial. Na verdade, o que eu mais gosto de fazer (e faço com a maior parte do tempo que estou perto dele) é observar as pessoas ao seu redor. Nesse dia, menina grande estava all over the place novamente, usando o boné que ele usa, tirando fotos. Californiana mais querida da dupla de californianas também estava toda derretida em elogios. Em dado momento, ela começou a enumerar para GG todos seus atributos, o que me deu uma vergonha alheia sem precedentes e eu fingi de morta. Ela pediu apoio, perguntou se eu concordava. Eu olhei pro horizonte e virei minha cerveja enquanto tentava disfarçar minha cara vermelha que só perdia pra de GG. Fico constrangida com se tivesse alguém dando em cima do meu namorado, sei lá. Sou blasé como nunca fui.

Ao mesmo tempo, entro numa nóia de interpretar toda reação de GG em relação a mim. Se a gente vai tirar foto e me abraça forte, significa alguma coisa. Se ele esbarra a mão na minha ou reposiciona o banco que está sentado um milímetro mais perto, é claro que ele me quer. No dia seguinte, quando eu vejo a tal foto do abraço eu tenho certeza que vai ficar tudo bem. Eu estou vivendo uma história sozinha, fundamentada em absolutamente NADA. Vou confessar que até curto reagir diferente, sentir diferente, ser diferente. Mas sei que é bobo, patético. Talvez era isso que eu precisasse: de um amor mais simples. Vocês podem achar triste, mas essa história me deixa feliz de uma forma estranha.

Nessa noite a roomate americana estava super considerando pegar um dos meninos, o menino ruivo. Menino ruivo é um cara gente boa, engraçado e tava curtindo a roomate. Fui lá na minha simpatia etílica e falei pra ele ser homem e fazer alguma coisa. Aí ele solta: por que uma mulher como ela ia querer um cara como eu? Vem cá, menino ruivo, dá um abraço. Disso eu entendo. Vai lá. Se você não acreditar em você ninguém mais vai.

Clichês são clichês por um motivo.

As australianas fofinhas lindinhas estavam apavorando na balada, como sempre. Eu nem me ligo nos caras de fora, acho todos uns estranhos. Neozelandês asiático e americana tapada estavam aparentemente em crise, ela sendo passive agressive e ele não sabendo (e não querendo) lidar. Americana tapada está PSYCHO em cima do pobre menino, que claramente não sabe como reagir em tal situação. O cara só queria curtir na boa, ir ficando e ver no que dá e ela quer passar o dia de mão dada tirando foto abraçado. Me solidarizo, ele é tão legal.

GG resolveu partir e lá fomos nós, as groupies, atrás. Menina grande e eu fomos andando juntas, tenho ficado cada vez mais amiga dela. O papo estava tão interessante, que deixamos GG ir e ficamos conversando na rua. Como era esperado, ela tem uma história que reflete no jeito que ela se comporta: namorou por onze anos com um cara e há um ano foi trocada por uma amiga em comum. Essas horas eu dou graças a Deus por já ter namorado e sofrido e conhecido outra pessoa and then again. Complica muito quando você não sabe que vai acontecer de novo e, provável, melhor. Ela tá naquela fase de achar que vai ficar sozinha pra sempre e mais cedo eu tinha soltado no busão a questão da depressão e ela veio falar isso comigo.

Tá todo mundo sofrendo. Tá todo mundo se ferrando. A gente tá junto nessa bagunça.

Fiquei a madrugada conversando com ela no lobby do hotel, falando de GG, de independência, desses clichês quase balzaca solteira bla bla bla de Carrie Bradshaw. Me senti resolvida. Estava dando conselhos, quem diria.

E como bem tem acontecido nessa viagem, voltei pro quarto feliz porque tinha focado em ajudar alguém. Nem lembrei de GG e da foto de rosto colado. Pra isso, sempre tem o dia seguinte.

Mas antes…

na hora que acabei de escovar os dentes, tirar a maquiagem e me deitar, batem na porta. Levantei correndo, a roomate devia ter esquecido a chave.

Era o neozelandês bebaco, escorado no batente da porta com cara de cachorro sem dono. *Dear roomate* told me to sleep in her bed. She is with *red haired guy*.

Ok, entraí.

Clima estranho. Neozelandês é um cara legal – incrivelmente legal pros padrões da viagem. Eu já não ficava com ninguém fazia uns trocentos meses. Fora isso, sabe aquela pessoa que quando vc conhece não tem nada mas com o tempo vai ficando INTERESSANTE? Pois é. Na verdade, a roomate fofa já tinha comentado isso outro dia.

Apaguei a luz, falei boa noite e fiquei lá na minha cama e ele na dela. Eu olhando pro teto, sem conseguir dormir. Sonhei que acordei na manhã seguinte e quem tava dormindo lá era GG. Meus sonhos tão mais óbvios que minha paixonite.

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