Como eu fui parar em Paris

Tenho certeza de que sonho durante todas as minhas muitas horas de sono. Lembro de muita coisa: algumas me fazem acordar perturbada e mudam meu humor. Outras também, mas dessas eu não consigo lembrar.

Desconfio que foi por causa de um sonho que levantei de sopetão num domingo cedinho e peguei o computador no colo: um inbox no Facebook sairia dos meus dedos antes de eu realmente pensar:

- Whereabouts in the world are you? Probably coming to London / Paris for a meeting this week. Any chances you are around? 

Eu não tinha viagem planejada e muito menos reuniões. Era meu jeito, como sempre, de perguntar ‘onde você tá?’ com uma desculpa plausível. Era meu jeito de achar confusão – e, olha, nisso eu sou boa, viu.

No dia anterior, é verdade, eu tinha ensaiado uma ida relâmpago para essas duas cidades, para acompanhar uma parte da família que faria turismo. Depois de um sábado afogada em busca de milhas, desisti. Mas minha cabeça, veja bem, nem tanto. Daí veio a mensagem.

O fim de semana passou, a família viajou. Na segunda feira, a resposta:

- I’m in Venice. In Paris on the 27th and then London a few days later. How are you?

Melhor não me mexer, nada de movimentos bruscos ou mesmo suspiros de espanto. Melhor nem responder. Silêncio.

Dois dias depois, eu recebo:

- Coming?

E assim eu acabei em Paris antes do domingo, como se fosse Atibaia ou o Guarujá. Charles de Gaule logo ali. Como eu sempre preguei, o mundo a um vôo de distância. Poupança é pros fracos. Responsabilidade também.

É verdade que a minha família estaria em Paris nos dias anteriores, partindo justamente no 27: uma prima queridíssima que nunca tinha ido à Europa e meus avós, com 85 anos, ainda com energia para peregrinações. Qualquer coisa vale pela experiência de levar meu avô ao Pompidou e ver minha prima bebê conhecer o Orsay pela primeira vez. GG podia nem aparecer, sabe. Eu bem estava me confortando, baixando minhas expectativas, me dizendo que ele não acharia hora entre tantos compromissos. No meio tempo, descobri uma feira de beleza onde poderia fazer pesquisa pro trabalho – so called meeting – e entrei em contato com mais dois ou três queridos que lá vivem/estariam. Worst case scenario? Eu sozinha andando por Paris.

Pas mal de tout.

Não era uma boa hora para eu viajar, é verdade. O ano até então foi um caos, minhas finanças estão em frangalhos e eu acabei de vender um apartamento do qual ainda tenho que sair. Comecei um trabalho novo há duas semanas e há pouco menos tenho saído com um mocinho (finalmente alguém interessante) que me levou de volta à rua, aos drinks, à vaidade, gargalhadas, beijos, filmes e madrugadas. Não era hora de correr atrás de uma paixão platônica do outro lado do oceano.

Mas se eu fiquesse quieta não seria eu.

Tenho um amigo que diz o seguinte: começar a namorar é igual viajar. Tem que comer tudo que está na geladeira antes. Foi essa piada que soltei nos dias seguintes, para ironizar e esconder que eu estava fugindo do risco de gostar de alguém aqui perto. Alguém que pode me machucar. A paixão platônica, intocável lá do outro lado do oceano, é muito mais inofensiva. É teoria da distração, é um tempo pra respirar. Eu não preciso de ninguém mais além de mim para me sufocar, é bem essa a verdade. Foi muito tempo catando caquinhos para colocar tudo a perder assim, no terceiro date. Fugi do continente de tanto medo.

E foi essa sequência de acontecimentos que me levou ao celular que tocou enquanto eu passeava pelo Boulevard Saint Martin.

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P. D. of affection

(Originalmente escrito em 3 de fevereiro de 2013)

O último texto começa como o primeiro: olho pela janela e lá embaixo, a Índia. Tinha planejado vir pra cá nessa última etapa da viagem, plano esse que tomou sua atenção (tão disputada, tão aguardada). A gente sabe que no fim das contas não rolou. Não rolou a Índia, não rolou você. O mundo real me puxou pelo pé, as burocracias me passaram a perna e eu tive que voltar a ser a Lorena de sempre, aquela que eu achei que não era mais. Talvez eu seja agora uma mistura dela com essa pessoa nova que apareceu no último mês. Eu gosto dessa menina: ela é sorridente, ela é sensata, ela ouve elogios com humildade e reconhecimento. Ela planeja e tem coragem. Coragem. No francês coragem se mistura com sorte. Sorte é caráter. É ir à luta. Tô indo.

Tô indo enfrentar o mundo real, aquela São Paulo que me estapeia – sou mulher de malandro dessa cidade que quero um dia te apresentar. Olho pela janela e solto um choro que segurei há uns 10 dias. Um choro que não veio por perplexidade, por desconcerto, pela cerveja derrubada após o último papo – ruim – e de você sumindo pela escada. Não é só a Índia que fica inexplorada. É você, do outro lado do mundo. Você aí nessa metade e eu do lado de lá. Que coisa estranha é trombar com alguém tão improvável. Como o mundo é pequeno, meu Deus.

Tenho tido conclusões tão discrepantes sobre esse par de olhos azuis que até evito me estender em análises. Você é tão fragil, e ao mesmo tempo tão confiante. Tão independente e tão cativante. Suas frases feitas parecem espontâneas. Suas inseguranças parecem ensaiadas. Eu passei um mês tentando descobrir quem é você e acho que nunca vou conseguir.

Mas olha só que engraçado: acabei descobrindo quem sou eu.

This is not about you, at all. Você foi meu espelho. Você no seu distanciamento me protegeu, Não há como machucar alguém sem tocar. Imaculado e seguro, imagina só, logo você.

Você já encanta outra multidão, já é reflexo pra outras tantas meninas perdidas – talvez seja justo esse o seu papel. Lembro que a primeira vez que te descrevi pra alguém me alertaram: esse cara é do mundo. Você existe para botar rumo no nosso coração. Para tirar a cabeça do lugar. Para dar sentido à alma, apertada, sofrida. É um clichê imenso falar que você muda a vida de quem te conhece – tão grande que eu já ouvi na fila do avião ou numa parada de beira de estrada. Tenho certeza que você ri por dentro desse bando de bobos babões mas, acredita, é a mais pura verdade. Eu acabei não indo à Índia mas você garantiu que eu fosse virada do avesso de outra forma, reagindo a tudo que você é – e não é, e talvez seja, e pareça ser.

Te deixo com a sua nova platéia embasbacada, espero que você fique em paz. Não consegui descobrir se você é feliz e muito menos te deixar alguma coisa. Eu tentei. Fica bem, aí do outro lado do planeta. Vai ter gente cuidando de você sempre. Vai ter gente se encantando sempre. E se faltar, eu tô por aí. Fiquei te devendo. Pode cobrar.

(…)

Eu não choro por sua causa.

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(Originally written on February 3rd, 2013)
 
The last text begins as the first: I am in the plane and out the window I can see India. I had planned to come here during this last part of the trip, a plan that took your (so disputed, so expected) attention. We all know it ended up not happening. India didn’t happen, nor did you. The real world happened: bureaucracies caught me off guard and I had to go back home, back to being the same person I thought I wasn’t anymore. Maybe I’m now a mixture of the old me with this new Lorena I discovered during the last month. I like this girl: she is always smiling, she seems wise, she takes compliments with humility and gratitude. She plans ahead and has courage. Courage. In French the meaning of the word courage blends with luck. Luck is character. Character to face the world. That’s what I’m trying to do.
 
I’m leaving to face the life in São Paulo, a city which slaps me in the face – and that I always end up coming back to. Looking out the window, I can finally release the tears I held for almost 10 days. Tears that were held by perplexity and unconfort; by the *awkward* last conversation, the accidentaly poured beer and you disappearing down the stairs. It is not only India that remains unexplored: it’s you, halfway around the world. 
 
How strange it is crossing paths with someone so unlikely. How small the world is.
  
I have had such disparate conclusions about this pair of blue eyes that I’ve tried to avoid dwelling in analyzes. You are so fragile and yet so confident. So independent and so captivating. Your lines seem spontaneous. Your insecurities seem rehearsed. I spent a month trying to figure out who you are and think I never will.
 
But, ironically, I discovered who I am.
 
This is not only about you. You were my mirror. You protected me in your distance: it’s harder to hurt and be hurt by someone you can’t touch. Immaculate and secure, you of all people, who would have guessed?
 
You already enchant another crowd, already serve as a reflexion to many other lost girls – perhaps this is exactly your role in our lives. I remember the first time I described you to a friend and she warned me: this guy belongs to the world. 
 
You exist to give direction to our hearts. To make sense of our restless little souls. It’s a huge cliché to say that you change the lives of those that get to know you – so big that I’ve heard it being said in line while we waited for the plane and/or at a roadside stop. I’m sure you laugh of this bunch of fools – and argues that none of us really know you – but, believe me, it is the honest truth. I ended up not going to India but you ensured that I was turned upside down, just by reacting to everything you are – and what you’re not, or maybe you are, or at least you seem to be.
 
I leave you with your new flabbergasted audience and hope you stay in peace. I could not figure out if you’re happy, much less give you anything. I really tried.
 
 Stay safe. There is always gonna be people taking care of you, no matter where you are. There’s always gonna be people being enchanted by you. And if there isn’t, I’m here. I owe you for everything.
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11o dia, do laos para o camboja, phnom penh

Saí um pouco das descrições práticas do dia anterior, então vou tentar recapitular. A viagem começou a tomar uma cara de despedida quando chegamos na última cidade do Laos, Vientiene, ontem. Para mim, ainda não tô nem na metade do roteiro, mas 15 pessoas do grupo só vão até o Camboja. Isso inclui: roomate fofa, as duas californianas fofas, mais da metade dos meninos, menina grande. Nesse meio tempo me apeguei à algumas pessoas, principalmente essas enumeradas, e as que não to curtindo são justamente as que vão pra segunda parte da viagem. Menos GG, claro. Tô felizona que eu continuo com ele.

Na noite de Vientiane, depois do Cope Center, demos umas voltas pelas feiras da cidade (que só tinha tralha) e fomos jantar. Vientiane é a parte mais “desenvolvida” do Laos, uma cidade bem fofa, clima legal. Do jantar, iríamos nos encontrar num bar ao lado do hotel mas eu e roomate – pasmem! – capotamos. Pois é. I’m not even sorry. Ok, talvez um pouquinho por causa do GG, né.

Pegamos o voô para Phnom Penh na hora do almoço, fizemos toda a papelada de entrada no Camboja e do aeroporto fomos direto pro busão que nos levaria pros campos de genocídio do Khmer Rouge.

Pausa: GG tinha me emprestado na véspera um livro sobre esse assunto (sobre o qual eu nem tinha conhecimento, que burra!) e gente, é pesado (novamente!). Tetê já me mandou botar link nesses trem mas vamos pra explicação básica: na década de 70 um partido comunista que estava se formando secretamente depôs a monarquia que existia há séculos. A idéia do Khmer Rouge era transformar o camboja numa nação equalitária e 100% agrícola, focada na produção de arroz. Para isso, no dia do golpe eles anunciaram que os estados unidos iriam bombardear Phnom Penh e mandaram todo mundo sair da cidade para o campo. TODO MUNDO. Quem não podia se locomover ficava pelo caminho. Desse abril de 1975 em diante, o Khmer Rouge controlava o país. Fecharam as escolas, que pra eles eram inúteis. Recrutaram as maiores mentes do país (médicos, engenheiros, professores) com o pretexto de que eles se envolveriam e ajudariam a montar um plano de desenvolvimento e (choque!) mataram todo mundo. Para eles, os intelectuais eram a maior ameaça e podiam tomar o poder. Daí começou o horror básico de qualquer ditadura: perseguição, tortura, genocídio, censura, etc. Isso foi outro dia, na década de 70 pra 80 e durou 9 anos. O Camboja até hoje está se recuperando desse período e, segundo GG, todo mundo perdeu um familiar no regime. Foi isso que o livro me ensinou e que tornou pano de fundo para uma das coisas mais chocantes que já vi na vida. COPE center ficou meio no chinelo, viu.

Eu já fui em campos de concentração na Alemanha e, pra falar a verdade, não fiquei muito abalada. É horrível, comovente, mas eu olhei tudo e saí normal para o próximo destino. Nada que tenha me marcado muito. No caso dos killing fields foi diferente: chegamos no lugar num calor senegalês e o guia local, que tinha um inglês de dar dó, começou a contar a história da família dele e como muitos foram parar ali. É muito mais pessoal, recente e dá pra ver a dor no rosto de todos os locais que estão trabalhando: o guardinha, a moça da lanchonete, o senhor vendendo flores. Cruel ter que estar todo dia num lugar desses. Bem no centro do “jardim” tem uma torre, com janelas de vidro, cheia, CHEIA, de crânios humanos. Pá. A retardada já começou a chorar aí. A dimensão é assustadora. À medida que passávamos por cada pedaço do campo, as descrições ficavam mais fortes, mais desoladoras. É estranha a quantidade de detalhe que o guia local dava sobre as execuções, logo depois de falar dos familiares que sumiram ali. Quase todo mundo chorava. Não tinha jeito. É um lugar muito triste, o ar é pesado, tudo tem cheiro de morte. A única coisa bonita que vi ali foi a simples (e colorida) homenagem que os visitantes fazem às vítimas: centenas de pulseirinhas penduradas na árvore que marca o ponto onde as crianças eram executadas. Milhares, talvez. Um a um, cada um colocou a sua. Parecia enterro. Voltamos pro ônibus calados e ficamos assim por uma hora.

Cambo_PP_killing

De lá, fomos para mais uma “atração” que tinha a ver também com o regime Khmer Rouge: a prisão S-21, onde aconteciam os interrogatórios e torturas. Dia pesado, eu falei. A prisão era anteriormente uma escola, que foi fechada como todas as outras do Camboja (segundo os líderes do Khmer Rouge, era inútil). Arquitetura simples, quadradona. Dentro, fotos das vítimas, dos integrantes do partido, nada especialmente interessante. O que mais me pegou foi o jeito que a luz batia nas celas escuras, principalmente naquela onde acharam os últimos prisioneiros (recém assassinados) quando o Khmer Rouge caiu.

Detalhes da prisão S-21

Fomos para o hotel fazer check in já no fim da tarde e nos arrumar para jantar. A noite incluía várias paradas: restaurante, bar, balada. Botei meu vestido branco magia (um pouco too much para a ocasião, mas qualquer esforço era bem vindo pra dar um up na confiança naquele momento) e fomos para um restaurante incrível, chamado Friends. Quem estiver em Phnom Penh, por favor, não deixe de ir nesse lugar. Vocês já ouviram falar daquele projeto do Jamie Oliver de fazer um restaurante e treinar adolescentes carentes para serem chefs? Então, é a mesma coisa. E a comida é absolutamente incrível. Sentei na cabeceira da mesa e GG láaaaa do lado oposto, um de cara pro outro, foi meio tenso. Pedimos vinho e eu tive que fazer mágica para não espirrar no vestido branco. O vinho era maravilhoso, por sinal. Sabe quando tudo conspira pro jantar ser memorável? Então.

Detalhes da prisão S-21

Detalhes da prisão S-21

De lá seguimos para um bar onde os estrangeiros (da ONU e afins) que vieram ao Camboja no início da década de 1990 para ajudar a reimplantar um regime democrático se encontravam na época. As bebidas eram ridiculamente baratas e todo mundo estava bem alegrinho (apesar do bar não ser isso tudo). Na verdade, era o aniversário de 21 anos de uma das australianas e ela própria estava bem desanimada. Oh well. Depois de uns dois drinks eu e roomate fofa decidimos mudar de lugar e falar com GG – ela tem mais facilidade que eu e isso me ajuda bastante. Perguntei pro GG da viagem dele pra África, de trabalho voluntário, sobre a possibilidade de eu esticar minha estada e ele foi bem receptivo. Bem bacana. Nem precisa falar que fiquei felizona né? Estava super focada na missão aproximação. Esticamos a noite pra uma baladinha bacana chamada Riverside e todo mundo estava já mais pra lá que pra cá. Nunca foi assim, mas o álcool me ajuda ultimamente. Eu fico menos tímida, meu humor melhora, eu fico amigona e eu tenho energia (normalmente à noite eu tô acabada). E tem uma coisa que eu faço diferente da maioria: eu sei a hora de parar. Como tem gente dando vexame, viu.

Dancei um pouco e sentei na varanda do bar com GG. Estava um calor louco e GG não dança (falarei mais disso), além de fumar. Não lembro muito bem o que conversei com ele, mas não consigo sair do assunto básico viagem/livros/música. Não sai do superficial. Na verdade, o que eu mais gosto de fazer (e faço com a maior parte do tempo que estou perto dele) é observar as pessoas ao seu redor. Nesse dia, menina grande estava all over the place novamente, usando o boné que ele usa, tirando fotos. Californiana mais querida da dupla de californianas também estava toda derretida em elogios. Em dado momento, ela começou a enumerar para GG todos seus atributos, o que me deu uma vergonha alheia sem precedentes e eu fingi de morta. Ela pediu apoio, perguntou se eu concordava. Eu olhei pro horizonte e virei minha cerveja enquanto tentava disfarçar minha cara vermelha que só perdia pra de GG. Fico constrangida com se tivesse alguém dando em cima do meu namorado, sei lá. Sou blasé como nunca fui.

Ao mesmo tempo, entro numa nóia de interpretar toda reação de GG em relação a mim. Se a gente vai tirar foto e me abraça forte, significa alguma coisa. Se ele esbarra a mão na minha ou reposiciona o banco que está sentado um milímetro mais perto, é claro que ele me quer. No dia seguinte, quando eu vejo a tal foto do abraço eu tenho certeza que vai ficar tudo bem. Eu estou vivendo uma história sozinha, fundamentada em absolutamente NADA. Vou confessar que até curto reagir diferente, sentir diferente, ser diferente. Mas sei que é bobo, patético. Talvez era isso que eu precisasse: de um amor mais simples. Vocês podem achar triste, mas essa história me deixa feliz de uma forma estranha.

Nessa noite a roomate americana estava super considerando pegar um dos meninos, o menino ruivo. Menino ruivo é um cara gente boa, engraçado e tava curtindo a roomate. Fui lá na minha simpatia etílica e falei pra ele ser homem e fazer alguma coisa. Aí ele solta: por que uma mulher como ela ia querer um cara como eu? Vem cá, menino ruivo, dá um abraço. Disso eu entendo. Vai lá. Se você não acreditar em você ninguém mais vai.

Clichês são clichês por um motivo.

As australianas fofinhas lindinhas estavam apavorando na balada, como sempre. Eu nem me ligo nos caras de fora, acho todos uns estranhos. Neozelandês asiático e americana tapada estavam aparentemente em crise, ela sendo passive agressive e ele não sabendo (e não querendo) lidar. Americana tapada está PSYCHO em cima do pobre menino, que claramente não sabe como reagir em tal situação. O cara só queria curtir na boa, ir ficando e ver no que dá e ela quer passar o dia de mão dada tirando foto abraçado. Me solidarizo, ele é tão legal.

GG resolveu partir e lá fomos nós, as groupies, atrás. Menina grande e eu fomos andando juntas, tenho ficado cada vez mais amiga dela. O papo estava tão interessante, que deixamos GG ir e ficamos conversando na rua. Como era esperado, ela tem uma história que reflete no jeito que ela se comporta: namorou por onze anos com um cara e há um ano foi trocada por uma amiga em comum. Essas horas eu dou graças a Deus por já ter namorado e sofrido e conhecido outra pessoa and then again. Complica muito quando você não sabe que vai acontecer de novo e, provável, melhor. Ela tá naquela fase de achar que vai ficar sozinha pra sempre e mais cedo eu tinha soltado no busão a questão da depressão e ela veio falar isso comigo.

Tá todo mundo sofrendo. Tá todo mundo se ferrando. A gente tá junto nessa bagunça.

Fiquei a madrugada conversando com ela no lobby do hotel, falando de GG, de independência, desses clichês quase balzaca solteira bla bla bla de Carrie Bradshaw. Me senti resolvida. Estava dando conselhos, quem diria.

E como bem tem acontecido nessa viagem, voltei pro quarto feliz porque tinha focado em ajudar alguém. Nem lembrei de GG e da foto de rosto colado. Pra isso, sempre tem o dia seguinte.

Mas antes…

na hora que acabei de escovar os dentes, tirar a maquiagem e me deitar, batem na porta. Levantei correndo, a roomate devia ter esquecido a chave.

Era o neozelandês bebaco, escorado no batente da porta com cara de cachorro sem dono. *Dear roomate* told me to sleep in her bed. She is with *red haired guy*.

Ok, entraí.

Clima estranho. Neozelandês é um cara legal – incrivelmente legal pros padrões da viagem. Eu já não ficava com ninguém fazia uns trocentos meses. Fora isso, sabe aquela pessoa que quando vc conhece não tem nada mas com o tempo vai ficando INTERESSANTE? Pois é. Na verdade, a roomate fofa já tinha comentado isso outro dia.

Apaguei a luz, falei boa noite e fiquei lá na minha cama e ele na dela. Eu olhando pro teto, sem conseguir dormir. Sonhei que acordei na manhã seguinte e quem tava dormindo lá era GG. Meus sonhos tão mais óbvios que minha paixonite.

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Sei lá que dia, me redimindo em phuket

Naturalmente a viagem acabou me atropelando na segunda semana e os posts ficaram pelo caminho. Escrevi muita coisa não postada por não estar em ordem, mas não desisti de me organizar. Estou em Phuket, com vôo marcado pra casa – aquele finalzinho de viagem que você já aceitou que vai acabar e tá louca para encontrar a própria cama. E os amigos. E a família. E a Céline. Eu tinha tantos planos aqui que não consegui realizar mas eu coloquei outros tantos na frente,  pra quando estiver de volta. O importante é ter planos. E os daqui continuam, porém adiados.

Vou recapitular pouco a pouco os acontecimentos, o rezar amar e comer (nessa ordem) desse último mês que ficou faltando. Talvez não com tanto detalhe, eu sei. Aos poucos vou conseguindo juntar as memórias.

No final é o que fica. Além dessa Lorena, que não é mais a mesma e que vai deixar o coração do outro lado do mundo.

Voltarei com peito vazio. E cabeça borbulhando. E pulso forte. O que levo de souvenir é força.

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pulando pro 10o. dia, de vang vieng para vientiane

Dia intenso! Fiquei escrevendo até tarde na véspera, meio que esperando a galera voltar da baladinha, ver se ia rolar uma fogueira* de novo e se GG ia estar lá, mas nada. Encasquetei que conversar com GG está sendo basicamente impossível, também por minha culpa: eu só procuro ele por coisas práticas, informações, agradeço e saio de perto. Pois é, aquela timidez. Ao mesmo tempo, como eu dou umas encaradas, também é grande a chance de ele estar me evitando – ele conversa com bastante gente – então resolvi não gastar tanto minha cabeça com isso. Na verdade, se até a troca dos grupos* não surgir nada minimamente concreto da parte de lá, eu desencano. Nem amizade tá rolando, tá foda.

(* Vou voltar e escrever sobre os dias faltantes e explicar essas coisinhas.)

Acordamos cedo, arrumamos mala, carregamos mala, pegamos o ônibus. Na espera do busão, GG sentou do meu lado bem na hora que eu estava respondendo por mensagem as pessoas que perguntaram sobre ele (gente, vamo ficar esperto aí, tem foto rolando no feice!) e lógico que a pessoa retardada aqui deu um pulo e se assustou. Como sempre, cuidamos de coisas práticas da viagem, eu agradeci e ponto. Tapada, eu?

Quatro horas de busão até Vientiane, a capital e última parada no Laos. Sentei do lado da menina grande e atrás de GG, que me emprestou um livro sobre o massacre de Khmer Rouge, no Camboja. Estou tentando sair do assunto GG mas esses dias trombei com a mini biblioteca que ele carrega e, gente, é amor. Todo tipo de livro sobre os conflitos, direitos humanos, trabalho local da ONU, essas coisas básicas que todo mundo carrega por aí, né? Durante a viagem ele arrasou numa aula incrível sobre o bombardeio que aconteceu no Laos paralelo à guerra do Vietnã, a chamada Guerra Secreta. A nossa primeira parada tinha a ver com isso, o Cope Center.

Eu nem sabia da Secret War antes de chegar aqui, e foi uma das coisas que mais me tocaram na vida. Durante 9 anos, entre 1964 e 1973, os EUA bombardearam o Laos a cada 8 minutos e muitas dessas bombas não explodiram (cerca de 40%), o que dá mais ou menos 60 MILHÕES de bombas ainda espalhadas por todo o país. Aí já viu, uma criança acha uma bolinha brilhante no meio do mato, resolve brincar e bum! Mais ou menos o mesmo princípio das minas terrestres na África.

Pra piorar, o Laos é o país que foi mais bombardeado no mundo em toda a história. O COPE center funciona exatamente para educar a população sobre esses objetos perdidos, principalmente as crianças, além de dar assistência às vítimas das bombas. Gente, é pesado. Eu até me acho estômago (e coração) forte pra essas coisas, mas chorei feito uma retardada. Vimos um documentário sobre as missões que existem para desativar as bombas e falamos com algumas das vítimas, que ficam por lá. Apesar de ter ficado mal, foi uma das coisas que mais gostei da viagem. Como falei, precisei atravessar o mundo para focar nisso. Se bem que no Brasil pode ter miséria e tudo, mas guerra a gente não tem. E é muito, muito pior.

Acho que já falei que tenho pensado bastante nessas coisas e como essa viagem tem me tocado nesse sentido. Percebi que estou muito mais feliz do que nos últimos meses, que minha vida está mais simples, que eu estou absorvendo mais do mundo e fico pensando qual é meu papel em tudo isso. Confesso que não tô pronta pra voltar pra São Paulo, pro meu apartamento bacana, pro ar condicionado do meu carro, pra um escritório qualquer, pra uma volta no Iguatemi e um jantar pelo Itaim. Não sei mais se isso me traz felicidade. Eu fiquei 4 anos construindo uma vida nessa cidade e a sensação que eu tenho é que ela mais me sugou do que me deu – e nisso eu tenho culpa, também não soube absorver. É isso que vai me fazer feliz? Sabe, levei 3 anos pra achar um amor de novo, um cara bacana para os padrões paulistanos que cruzaram meu caminho, e aí aconteceu o que aconteceu, e aí eu venho aqui e olha o que tá na minha frente… não tem nem comparação. Falando de GG: acho que ele vai me marcar muito por isso, por me mostrar uma outra vida. Um cara LINDO, privilegiado, tão inteligente, absurdamente apaixonado pelo que faz, pelo mundo, pelas pessoas. Esse cara não estaria em São Paulo. Esse cara não trabalharia num banco de investimento. He blows my mind, in every way.

Têm um mundo bem maior aqui fora.

Não é que eu estou fazendo festa com um monte de gente incrível, ou que estou no meu ambiente, pelo contrário. Aliás, isso é ainda mais curioso. Tenho passado bastante tempo relativamente isolada, quieta, e isso está me dando uma paz que eu nem lembro se já senti. Uma paz que Londres não me deu. Uma sensação de que eu sou muito abençoada, sortuda e que há muito pela frente. Não é por isso que a gente procura?

Tenho falado bastante sobre isso com a minha roomate, que tá num momento de vida parecido mas é 3 anos mais velha. Esses três anos, nessa fase da vida, fazem toda a diferença. Ela acha que se não voltar pra São Francisco, ela vai perder o timing de ter a família dela e que isso é prioridade. Eu concordo, é prioridade. Mas eu não acho que vou achar em São Paulo. Antes eu tinha medo de não achar. Agora então, duvido que apareça. Não existe amor em SP.

Enquanto tô aqui vivendo de havaianas, gastando 20 reais por dia (sim, gente, vinte dilmas num dia movimentado!) eu vejo no instagram as Lalás da vida postando fotos das suas maquiagens novas e eu só fico triste por elas. Essas meninas têm toda a oportunidade de viver o melhor desse mundo e tão lá no Jardins fotografando a pia. Eu já fotografei meus sapatos e eu tenho uma Chanel, eu sei. Não que eu não estivesse procurando as coisas de verdade lá em São Paulo. Eu tava, eu já sabia o que me faria feliz de certa forma. Mas essas coisas ou não aparecem ou vão ficar com uma dançarina de pole dancing. O que tá à nossa mão são as alegrias superficiais, elas estão por todo lado e a gente pode pagar por muitas delas. As verdadeira sumiram. Não é esse o mundo que eu quero viver.

Quero deixar claro que eu sei que eu faço parte dessas meninas privilegiadas que podem se dar ao luxo de viajar o mundo e, talvez por isso mesmo, seja meu dever embarcar nisso o máximo que eu puder. Percebi que nessa viagem meu prazer de escrever voltou, que eu posso contar histórias, que eu posso trazer o Brasil para esses universitários tapados, para a roomate incrível, para o GG. Eu fico pensando que juntei grana a vida toda pra uma festa de casamento fenomenal e talvez o casamento de verdade seja esse. Com o mundo. Tô viajando?

O mundo nunca vai me trocar por uma dançarina de pole dancing e nem mesmo por uma modelo da Victoria’s Secret.

É nisso que eu pensei enquanto chorava do lado de fora do COPE center. Escondida, porque eu sabia que não tinha o menor direito de estar chorando enquanto o menino de 19 anos mutilado e cego ria com as visitantes. Talvez essa seja uma pista do caminho que eu devo seguir.

Napoleon was a fucking rockstar. – a quote from history class by our beloved GG.

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9o. dia, vang vieng

Esse día era livre e GG tinha sugerido alguns programas outdoors tipo trekking, kayaking, ir numa gruta, essas coisas que eu adoro. Chegou perto de mim e sugeriu que eu ficasse mais quieta esse dia e não fizesse nada dessas coisas pra poupar meu dedo. Era exatamente o que eu queria.

Tomei café tarde, curti uma preguiça. O hotel era basicamente o lugar mais bacana da cidade, eu tinha uma vista fenomenal, então tava tudo certo. Às duas da tarde a galera ia de bicicleta nadar num lago e nessa parte eu tava a fim de ir (GG falou que se eu quisesse me levaria de tuktuk) mas capotei. Eu e meu sono, né? É sempre assim, dou aquela Lorenada pesada e acordo numa pseudo deprê pq perdi alguma coisa, fico pensativa, uma merda. Foi exatamente o que aconteceu.

Resolvi compensar meu atraso tomando um banho bacana e me arrumando um pouco mais pra noite. Mais uma vez eu tentei sentar perto de GG e não consegui e, pior, ele desapareceu do segundo bar. Fiquei lá um pouco, mas já falei que não é a minha galera. A maioria das meninas ficou conversando separadamente com caras alheios e eu fugi. Eu sei, eu sei: sou tapada. Mas gente, PRA QUE vou ficar fazendo esforço pra ficar num lugar que não tá divertindo e com gente que não me interessa? Não consigo. Até tento.

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8o. dia, vang vieng

Acordamos cedo e eu gastei o dobro do tempo para me arrumar e arrumar as minhas coisas com o dedo do jeito que estava. Durante a noite ele doeu pra caramba e continuou bem inchado. Para piorar, dois outros dedos da mão esquerda também estava inchados e doloridos, o que me deixava com 3 dedos funcionais em cada mão. Roomate fofa foi correndo no café do dia anterior e buscou croissant e moccha pra mim enquanto eu me ajeitava e às 8 da manhã já estávamos na estrada. GG tinha falado e repetido que a estrada era ruim e que a viagem era bem longa mas muita gente passou mal, deu piti, reclamou, aquela coisa. Eu escrevi metade do tempo e dormi metade do tempo, peguei duas poltronas só pra mim, nem foi tão ruim assim. Na verdade, depois da véspera, eu estava razoavelmente aliviada que estávamos deixando as três biscates para trás.

Na parada para almoço, num lugar bem lindo tipo o Topo do Mundo, surpresa: lá estavam elas, fazendo uma pausa do mesmo trajeto. Ai meu deus, que azar. GG não parecia assim tão entusiasmado quanto na noite anterior (lógico, estava trabalhando) e elas ficaram na dela. Serviram um almoço bem gostoso, eu comprei uns M&M’s pro resto do dia (deixando secretamente um pacote na poltrona do GG, que é viciado) e simbora. A essa hora, todo mundo só queria saber de chegar.

Paramos em Vang Vieng, nosso destino do dia, no fim da tarde. Algumas meninas que passaram mal durante a viagem pediram para ir ao hospital local quando chegássemos e achei boa ideia me juntar a elas para dar uma checada no meu dedo. De manhã cedo, quando contei pro meu pai do que tinha acontecido, ele me perguntou duas coisas: Tirou raio X? Imobilizou? Sim, estava imobilizado mas nada de raio x. Achei prudente garantir essa parte.

Acabou que quando chegamos, as tais meninas desistiram do hospital. Acho, na verdade, que é tudo piti de gente mal (ou bem, depende do ponto de vista) acostumada com estrada. Fomos só eu e guia local andando, uns 3 minutinhos pra chegar.

Sobre o guia local do Laos, que era um querido: de todos os agregados que tivemos, ele era o mais bacana e nos mostrou um lado muito mais pessoal do Laos. Talvez por isso mesmo, todo mundo curtiu tanto o tempo no país. Toui é novinho, tem uns 23 anos, casado, sorridente, o típico asiático na boa. Foi monge na adolescência – é o jeito mais fácil de ter uma educação bacana – e saiu para fazer faculdade na capital, Vientiane, antes de virar guia. Por isso, ele sabe TUDO de budismo. O mais curioso é que ele e a esposa têm um combinado de que, depois que os filhos crescerem e saírem de casa, os dois vão se divorciar e voltar a ser monges. Isso mesmo. Não é curioso? A parte bacana disso tudo é que você pode ser monge por um tempo determinado, sair, voltar, ninguém te julga. O que tá me encantando no budismo é isso: o respeito à individualidade, aos questionamentos, à jornada e escolha de cada um. Toui tinha uma frase clássica que repetia sempre: No problem! This is Laos. Depois fui descobrir que é realmente uma expressão constantemente repetida no Laos, tipo Hakuna Matata, sabe? Por causa dele também acabei aprendendo uma meia dúzia de palavras a mais que em qualquer outro país.

A ida ao hospital de Vang Vieng, que era uma das menores cidades a que fomos, foi uma experiência interessante. Era um lugar como um posto de saúde (um pouco maior talvez) mas bem arrumadinho e relativamente vazio. Todo mundo foi bem bacana comigo e eu fiquei rindo do programa tailandês (bem estilo aquele talk show de Lost in Translation) que passava na tv. Fui atendida rápido, fizeram meu raio x e falaram que tá tudo bem. Até tirei a tala. Pronto, tinha como souvenir um raio x feito no Laos! (Mas o dedo ainda doía pra caramba.)

O hotel ficava de frente para o rio e umas montanhas incríveis de lindas. Tinha um deck bacana do lado de fora e wifi no hotel todo (sempre bom!) mas ainda era bem simples. Essa noite iríamos jantar e ir para uma baladinha em seguida e eu estava em pânico das 3 biscatas aparecerem, realmente determinada a sentar perto de GG no jantar, com vergonha de tudo – mais ou menos a mesma coisa de todos os outros dias, na verdade. Esses dias eu estava seguindo uma estratégia (furadíssima, diga-se de passagem) de na hora que chegava no restaurante eu dava uma sumidinha no banheiro, para as pessoas sentarem e ficava no ultimo lugar que sobrava – que era normalmente onde GG tb sentava. Pois bem, resolvi fazer isso só que não deu certo pq umas 5 pessoas atrasaram para ir pro restaurante e ele acabou sentando com elas. Damn! Nunca dá certo, gente!

O restaurante era bem divertido, meio ao ar livre, com umas mesas com tatame e clipes passando em tvs. Bem animado. Eu tava bem feliz que tinha comida ocidental no cardápio e era minha chance de comer um hamburger, yay! Ganhamos bebidas grátis de um garçom peça raríssima, começamos a dançar, foi uma pré baladinha de respeito! De lá, fomos para outro bar chamado Fat Monkey, lotado.

Um parênteses para Vang Vieng: até bem pouco tempo atrás a cidade era uma Amsterdam da Ásia e muitos europeus iam pra lá pelas drogas. A maioria dos bares ainda tem um cardápio “especial”e tipo uma ala de maconheiros, cheia de tatames com almofadas e tvs passando Family Guy. Quando chegamos no Fat Monkey, claramente mais da metade da galera era bem dessa vibe (e eu obviamente não sou). Mais cedo, antes do jantar, tinha conversado com a Cons no FB e ela deu a maior força para eu ser mais agressive pra cima de GG e investir na ajuda da vodka. Com as bebidas grátis que ganhei, tava mais fácil. GG passou grande parte do tempo no segundo bar resolvendo uma briga retardada entre a americana tapada e a australiana louca (que eu menciono no primeiro jantar) e na hora que ele falava só com a americana eu resolvi bicar. Cara, GG é um sonho. O jeito que ele lidava com aquela situação patética era de babar. Ele começou a falar algumas coisas da experiência dele, de como ele teve problemas com a família uma época, como ele ainda é julgado pela escolha que fez – enquanto o irmão é médico – e eu fiquei ainda com mais vontade de conhecer esse cara e saber o que ele viveu. É um saco pq eu pego uma coisinha aqui e ali mas não consigo passar disso. Esse dia, na verdade, participei dessa conversa um pouco e fiquei BEM (desproporcionalmente) feliz. Na verdade, esse dia eu estava super na paz, feliz comigo, feliz com GG, me achando bem resolvida e acabei mediando a briga das meninas junto com GG, cuidei um pouco da australiana louca (tentei, na verdade) e voltei com GG e elas pro hotel.

Eu não estava no quarto há nem 15 minutos quando vi da minha janela GG tocando violão no deck, uma foguerinha acesa e algumas pessoas perto. Desci correndo, sentei lá, mas logo as 3 biscatas chegaram DAQUELE JEITO. O engraçado, na verdade, é que GG estava fugindo delas. O negócio é que ele é ultra sutil e educado (tipo com a australiana louca, que ninguém suporta e ele super passa por cima da antipatia pessoal para cuidar dela) e eu fico com aquele receio de estar acontecendo basicamente a mesma coisa comigo. É assim, essa espiral: auto confiança, papo, self consciousness, sumiço.

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ainda 7o. dia, luang prabang

Era a última noite na cidade fofa e nenhum dedo quebrado ia me impedir de me divertir. GG me emprestou um esparadrapo e uma das meninas que são enfermeiras (tem duas) usou o meu dedo anelar como tala para imobilização. A essa hora meu dedo estava da largura do meu pulso – completamente inchado, completamente roxo até a palma da mão e bastante dolorido. Bem bonito.

Fomos jantar num restaurante novo bem lindo – onde GG fez reserva mas nunca tinha ido – e tomei duas taças de vinho, tiramos foto, rimos, foi bem bacana. De lá, para o Utopia. Fiz uma hora para sair do restaurante e acabei ficando conversando um tempinho com menina grande (esse dia decidi que ia colar nela porque ela sempre estava com GG) e uma australiana violinista bem fofa e, óbvio, elas falavam sobre GG. Menina grande contou que facestalkeou o perfil dele e que ele contou que na última viagem tinha gostado bastante de uma menina, mas que eles não ficaram. A tal sortuda, segundo menina grande, tinha cara de brasileira, era baixinha e morena e de cabelo comprido e magrinha (tudo o que eu não sou, ela disse) e aí ela me solta a pérola do ano: aposto que se alguém nessa viagem tem alguma chance com ele, é você. GENTE! Menina grande virou minha melhor amiga.

Fiz cara de que nem tinha imaginado isso e perguntei: vocês acham ele isso tudo mesmo? Nossa, nem olhei pra ele dessa forma, ele é tão profissional que isso nem passou pela minha cabeça. Eu duvido também que isso aconteceria. Aí as duas começam a falar com ele é perfeito: másculo, mas super gentil e blablablabla. Maybe it’s an australian thing, ela disse. Não, amiga, não é.

Antes mesmo de menina grande me falar tudo o que eu queria ouvir eu já tava achando ela fofa, menos boba que a galera (talvez por ter 28 anos) e fiquei meio com pena porque ela genuinamente estava apaixonada por GG. Conversamos mais um pouco e dá pra ver que ela tá naquela fase que todas as amigas estão casando e parece que ela não tem um namorado há tempos, então rola uma baixa auto estima (been there). Entre as coisas que ela falou estão always the bridesmaid, never the bride e depois de um drink ela soltou tô triste, queria ter a sua cara e seu corpo. Como não amar? Virou amiga, gente. Eu sei que é bobo, mas isso mexe com todo mundo e eu realmente me identifiquei com ela em algumas coisas.

Chegando no Utopia, rolou o maior balde de agua fria da história: GG estava rodeado por 3 meninas gatas que não estão no grupo. Gente, pavor. Gelei e fiquei mal humorada na hora, menina grande quase chorou, foi uma tragédia. Uma delas ficava passando a mão no cabelo dele – biscate! – descaradamente e ele parecia estar curtindo o negócio. Éee galera, ninguém falou que ia ser fácil. Resolvi sair de perto e conversar com um pessoal no bar (ninguém interessante, todo mundo é meio esquisito) e em certo ponto pensei: vou embora. Rídiculo como isso mexeu comigo, né?

Foi nessa hora que a roomate apareceu, bem bebinha e falou: nananinanão, você fica e nós vamos pro boliche. Nem que seja pra chegar lá e voltar. Ok, então. Eu fui. Na ida, uma galera ficou no hotel e foi a cena mais ridícula pq GG saiu do tuktuk e eu pensei pra que que eu to indo pra esse negócio com o dedo quebrado? e pulei do carro. Aí eu percebi que ele tinha saído só para olhar o tornozelo que a gorda no. 2 (que não foi mencionada até então) tinha torcido e o carro tava esperando por ele. Aí eu dei de louca e voltei pro tuktuk. Foi a coisa mais descarada do mundo.

Taí o que acontece: eu me escondo, escondo, escondo e aí eu faço um negócio desses e acabo ficando mais 3 dias escondendo. Ou eu sou psycho, ou eu sou mal educada. Não vai dar pra mim, gente.

Shyness comes across as rudeness.

O boliche era bem chato, a galera estava loucamente bêbada e eu não podia jogar. GG ficou sendo a coisa irresistível e irritante que é e eu fiquei na minha. Na volta pro hotel, menino asiático (que na verdade é neozelandês e sobre quem eu não tinha falado ainda, mas conversei com ele e ele era um dos mais interessantes dos seis do grupo) e americana tapada se pegaram loucamente. O primeiro casal estava formado e eu estava pronta pra ir dormir.

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7o. dia, luang prabang

Esse foi basicamente o dia mais bacana da viagem até então. Luang Prabang é um amor – e pensar que eu nem sabia que essa cidade existia! Acordamos antes das 6 para uma tarefa super especial: alimentar os monges.

Oi??? Mas monge é tipo bicho que tem que alimentar?

Não, gente. A população da cidade se considera responsável pelos monges e todos os dias dividem sua comida com eles. Ao amanhecer, todo mundo vai pra rua com arroz, lanche, frutas e esperam os monges passarem como numa procissão, carregando uma espécie de tigela de prata com alça, como uma bolsa (uma quentinha with lasers) e vão distribuindo a comida. É bem bonito. Depois que os mais de 200 monges passam e voltam para o templo para compartilhar tudo o que coletaram, o dia oficialmente começa em Luang Prabang. (Se você não tem comida, por exemplo, você pode ir no templo fazer as refeições com eles.) Isso acontece 365 vezes por ano.

De lá, partimos para o programa mais esperado dessa etapa da viagem: Elefantes! Fomos de van para uma fazenda onde se formam os mahouts, os famosos treinadores de elefantes. Pra quem não sabe, esses caras passam a vida cuidando de um animal específico e os dois crescem juntos e passam a vida juntos (um elefante vive uns 100 anos). Chegando lá, tinha elefante solto pra todo lado. Apenas surreal. Além de elefante, obviamente, tinha cocô pra todo lado. Subimos numa plataforma da altura de um andar, conhecemos nosso mahout da vez (um querido, bem novinho) e simbora dar um rolé de elefante. Gente, que delícia. O mahout nos ensinou as ordens básicas (em Lao, é claro) e logo mandou a gente pular da cadeirinha direto pro cucuruto da nossa querida elefoa (que era uma menina de 32 anos!). E aí foi aquele festival de uns 10 elefantes soltos pelo mato, “montados” por aquele bando de gringos loucos. Os mahouts riam e tiravam foto. Fofura só.

E isso ainda era antes do almoço!

Almoçamos num café delicioso já de volta à cidade, andamos um pouco pela feira local (que era cheia de coisa bacana e eu super me arrependo de não ter comprado nada por achar que ia ter tempo de voltar) e corremos pro hotel para botar biquini e ir pra uma cachoeira. GG estava na nossa van e nem precisa falar que eu entrei na nóia de ficar babando e tentando falar com ele (sempre sem sucesso, porque sempre tem alguém mais espertinho falando antes).

A cachoeira, na verdade, não era nada superior à nossa Serra do Cipó e afins e eu fiquei bem menos entusiasmada que a galera. GG pegou a câmera da roomate, que tem um zoom poderoso, pra tirar umas fotos bacanas nossas e usou o zoom para espiar o que a gente tava falando dele. Ops!

Na hora de entrar na água, tensão: GG ia nadar? E o pavor de ficar de bíquini?

Os arredores da cachoeira estavam super escorregadios e tinha bastante pedrinha, o suficiente para me fazer uma total pateta desequilibrada de biquíni. Pra piorar, na hora que resolvi sair da água, GG resolveu entrar. Pra quê… a galera estava pulando na água pendurado numa corda, que saía de uma árvore alta e escorregadia e insistiu pra eu ir junto. Beleza né, tudo pra não ter que passar cambaleando pelas pedras rumo a GG (além de quê eu tinha a desculpa que saí da água só pra pular, e não que mudei de idéia porque queria ficar perto dele). Pois bem, abracei a pior ideia da minha vida e subi na árvore me achando gata, magra (obrigada ex pela depressão que me custou 8 quilos <3) e brasileira/aventureira/desencanada/Gabriela, peguei a corda e fui. Não precisa nem dizer que deu merda.

Quem me conhece sabe que eu não sou boa com atividades físicas, aventuras, coordenação motora grossa. Era uma criança gordinha que levava tombos o tempo todo e gostava de brincar de Barbie ou quebra-cabeças, sentada. Pois bem, isso quer dizer que eu nunca nem cheguei perto de um rope swing, nunca paguei de Tarzan, e claramente não sabia a mecânica da coisa. Em vez de me agarra na corda, eu simplesmente segurei e pulei e, lógico, minha mão não aguentou o peso, o impacto, nada disso. Enquanto eu caía, GG assistindo de camarote, era claro que foi uma cena absolutamente patética. Mergulhei na água gelada morrendo de vergonha e alívio por ter sobrevivido, nadei um pouco e senti uma coisa estranha na minha mão, como se uma unha tivesse quebrado. Olhei minhas mãos e, socorro, a última falange do meu dedo médio direito estava virada em 45 graus.

Vocês lembram daquele filme com a Meryl Streep, Bruce Willis e Goldie Hawn, bem velho, chamado “A Morte lhe cai bem”? Então, foi tipo a cena que a Goldie Hawn (ou seira a Meryl Streep?) cai da escada. Meu dedo não doía NADA e eu simplesmente botei ele no lugar. Quando eu fechava a mão dava pra ver que ele ainda estava torto e eu só conseguia rir de choque e de vergonha de ter quebrado um dedo pra pagar de gata pra GG. A que ponto chegamos, meus amigos.

Só porque passar vergonha nunca é bastante, na saída da água, ainda em choque por causa do dedo, eu escorreguei na lama e caí feito uma pata de biquíni – gostaria de agradecer novamente ao ex pela minha magreza, que foi a única dignidade que sobrou. GG veio ver o meu dedo e eu só queria saber de sair correndo. Fomos conversando na van de volta pro hotel, ele me elogiando porque eu tava super no espírito esportivo (veja bem, com o dedo possivelmente quebrado – mas sem dor – e toda suja de lama, é o que me restava) e fomos falando de pesadelos e sonhos pelo caminho. Eu e roomie contamos pra ele do pesadelo que tivemos simultaneamente e todo mundo entrou no papo começou a contar dos pesadelos mais bizarros que já tiveram.

De repent, GG solta a pérola: You guys are crazy, I never have these kind of creepy nightmares. Usually I just dream these normal stuff, like having sex with hot girls.

SILÊNCIO NA VAN.

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6o dia, de pak beng para luang prabang

O dia começou cedo, já saindo de PakBeng e de volta no barco – mais 8 horas de viagem! Vou falar que estava relativamente feliz com isso: ia ter mais tempo para interagir, relaxar, aquilo tudo. Nesse dia fiz um esforço maior para bater papo com as pessoas, já que estava incomodada com meu deslocamento da véspera. GG mandou uma playlist de sonhos, começando por Muse que automaticamente virou seu tema. A menina grande também estava claramente obcecada e eu criei um pavor dela nesses dias – o que piorou quando eu vi as havaianas dela, que eram numero 41! Esse negócio de referência de beleza é engraçado né, eu não tenho a menor ideia quem a galera acha bonita ou não, muda muito culturalmente. Se me perguntassem quem o GG acha gata na viagem eu não saberia nem chutar. A verdade é que nesse dia ele e a menina grande pareciam bem próximos e ela tava toooda felizinha, ele até ficou usando os óculos de grau dela (meu deus, Brasil, ainda botou óculos!) e eles conversaram bastante.

Nas conversas alheias, GG era tema recorrente e uma das coisas que ouvi é que ele falou pras meninas (que tiveram a cara de pau de perguntar) que não fica com ninguém dos grupos, o que eu acho absolutamente profissional e correto da parte dele, mas… ao longo do dia parei pra pensar: esse cara passa 6 meses direto trabalhando, um grupo atrás do outro, QUE HORAS ELE PEGA ALGUÉM? Gente, ninguém é de ferro, ainda mais quando 24 meninas estão te disputando. Se isso serve de alguma coisa, é pra eu achar ele ainda mais incrível.

Tô falando de GG bastante porque no barco caiu a ficha do tanto que eu tava curtindo ele e foi quando eu escrevi a maior parte dos posts. Meio que me odeio por estar nessa nóia e decidi sair dela. Se não fosse por… bom, já conto.

No meio da tarde chegamos a Luang Prabang, the most beautiful city of southeast asia segundo nosso queridíssimo guia local, Tuui (sei lá como soletra). Ainda no tuktuk a caminho do hotel deu pra perceber a fofura que a cidade era e, pra melhorar, chegamos e já fomos andar de bike – meu programa preferido em qualquer viagem. Passamos por mais um templo lindo, cheio de monges (a cidade é famosa por seus monastérios) e novamente eu fiquei naquele encantamento. Pois é, gente, o pray e o love da minha viagem tão bombando (e eu fico até feliz que o eat nem tanto). Bom, creepy platonic love, mas tá valendo. Como falei, tá abrindo os horizontes.

Fomos jantar num restaurante bem bacaninha – a cidade é super movimentada, turística – e de lá saímos para um bar bem legal chamado Utopia. Era um lugar grande, ao ar livre, com uma quadra de volei de praia e uma vibe bacana. GG estava em casa, isso tava claro. Nesse bar acabei conhecendo 3 meninas de BH, uma que até mora em São Paulo e eu tava num humor melhor, conversei com bastante gente e voltei pro hotel feliz. No Laos há toque de recolher, às 23hs todos os dias, e a única alternativa é um boliche meio fora da cidade, controlado por chineses. Muita gente esse dia estava bem bêbada e bem mais animada (inclusive pegando gatinhos, que não era nada meu caso) e segui por boliche mas eu, roomie e mais um pessoal fomos dormir. O dia seguinte ia ser grande e eu não podia perder nada.

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